As cavernas de aço
Há livros que se leem para passar o tempo e livros que ficam a trabalhar depois de os fecharmos. As Cavernas de Aço é do segundo tipo - e o que surpreende é que foi publicado em 1954.

Uma Nova Iorque debaixo de betão
Asimov constrói um cenário claustrofóbico: uma Nova Iorque futurista onde a população vive inteiramente em megacidades subterrâneas, sem contacto com o exterior. As pessoas não saem. Não querem sair. O exterior tornou-se algo a temer. É uma distopia subtil - não há tiranos nem catástrofes explícitas, só uma sociedade que foi fechando sobre si própria até a clausura passar a parecer normal.
Neste contexto, os robôs são mão-de-obra barata importada pelos “Espaciais” - humanos que colonizaram outros planetas e vivem rodeados de tecnologia. Para os terrestres, os robôs representam desemprego e humilhação. O ódio a eles é visceral e completamente compreensível.
O crime e a dupla improvável
O enredo é policial clássico: um cientista espacial é assassinado, e o detetive Elijah Baley fica encarregue da investigação. A complicação é que lhe atribuem um parceiro - R. Daneel Olivaw, um robô com aparência humana suficientemente convincente para passar por pessoa.
Baley não gosta. O leitor percebe porquê. E Asimov aproveita essa tensão durante todo o livro, sem a resolver de forma arrumada.
O mistério em si funciona bem - tem pistas genuínas, suspeitos plausíveis, e uma solução que não trapaceia. Mas o caso é apenas o veículo. O que o livro está mesmo a investigar é outra coisa: o que fazemos quando aquilo que tememos não é perigoso, e aquilo que aceitamos como normal começa a ser?
R. Daneel Olivaw
É a personagem mais interessante do livro, o que é irónico dado que é um robô. Daneel segue as Leis da Robótica à risca - não pode fazer mal a um humano, deve obedecer, deve proteger-se - e ainda assim as suas ações têm uma qualidade que Baley (e o leitor) vai tentando catalogar como “quase humano” sem nunca conseguir fixar exatamente o que isso significa.
A edição Argonauta nº 37
A edição portuguesa saiu em 1956 pela Livros do Brasil, dois anos depois do original americano - o que, para a época, era notavelmente rápido. A coleção Argonauta foi durante décadas o canal principal pelo qual a ficção científica entrou em Portugal, e este volume faz parte dessa primeira vaga. A capa tem a estética retro característica da série. Para quem coleciona, vale pelo contexto histórico tanto quanto pelo texto.
Veredicto
9/10. As Cavernas de Aço é ficção científica que usa o futuro para falar do presente - xenofobia, automação, medo da mudança - sem nunca parecer que está a dar uma lição. O Asimov tem a mão leve nessas coisas. Lê-se depressa, fica-se a pensar mais tempo.