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Uma tarde florida

Esta tarde saí com intenção de fotografar borboletas. Um vento persistente, porém, impediu-me de prosseguir com os meus planos. Sem grandes alternativas, tentei desviar a minha atenção para alvos mais fixos. Inevitavelmente, como sempre acontece nestes casos, fui surpreendido com a diversidade que podemos encontrar num pequeno espaço florestal. Apenas precisamos aprender a olhar!

A primeira a chamar a minha intenção foi esta minuscula flor rosa. De acordo com a minha pesquisa no flora-on, deduzo tratar-se da erva-de-são-roberto, Geranium purpureum.

Geranium purpureum Vill.
Geranium purpureum Vill.

Entretanto, logo ao lado, enquanto atravessava o leito seco de uma das ribeiras temporárias do Pinhal, outra pequena flor me chamou a atenção. Esta é um género que já conheço bem. Não vai passar do género pois não me atrevo a tentar chegar à espécie. Um Myosotis sp.

Myosotis L.
Myosotis L.

Depressa descobri não ser o único apreciador do Myosotis. Ali ao lado uma mosca banqueteia-se de néctar e, reparem, na pétala mais à direita está um pequeníssimo colêmbolo (ordem Collembola), de que só me apercebi ao ver a fotografia no computador.

Uma mosca em Myosotis

Uma flor de amarelo intenso chamou-me a atenção. Mais um género conhecido: Ranunculus. Uma pequena investigação leva-me a supor tratar-de de Ranunculus repens. Apesar de manter alguma margem de incerteza nesta identificação, o nome-comum referido pelo flora-on parece assentar-lhe muito bem: botão-de-ouro.

Ranunculus cf repens L.
Ranunculus cf repens L.

A flor seguinte foi a primeira surpresa da tarde. Embora os Cistus (estevas) sejam muitíssimo abundantes no Pinhal, eu diria que 90% deles serão Cistus salviifolius. Ver este género em rosa, chega a ser impactante entre os seus inúmeros primos brancos. Curiosamente, esta roselha, Cistus crispus, é a flor do mês no projeto BioDiversity4All, a quem já submeti o registo do local.

Cistus crispus L.
Cistus crispus L.

As Tuberaria guttata (alcar, diz o flora-on?), apareceram-me nas suas diferentes variedades, como já é habitual com a espécie.

Ainda com as Tuberaria no pensamento os meus olhos cruzam-se com outra flor, bem distinta da Tuberaria e, no entanto… Estes Halimium halimifolium foram novidade para mim. Já os terei visto, certamente, dezenas de vezes, mas nunca com a atenção que merecem. Enquanto a Tuberaria é uma pequena herbácea com 10 cm, os Halimium halimifolium são arbustos que facilmente atingem 1 m de altura. A semelhança está limitada às flores. Também eles me apareceram em duas variedades.

E, para que a confusão não se instale, o Halimium calycinum que, esse sim, sempre conheci, nasce logo ao lado. É um arbusto mais rasteiro que o seu primo.

Halimium calycinum (L.) K.Koch
Halimium calycinum (L.) K.Koch

Confuso? Ainda não acabou. É que temos também a Tuberaria lignosa

Tuberaria lignosa (Sweet) Samp.
Tuberaria lignosa (Sweet) Samp.

Para me refazer deste jogo das diferenças, viro-me para uma planta omnipresente e bem conhecida. Já a referi antes, o Cistus salviifolius.

Cistus salviifolius L.
Cistus salviifolius L.

Aproveitando que me virei para as flores brancas, fotografo esta pequena Simethis mattiazzi. Pelo menos julgo que é ela.

Simethis mattiazzi (Vand.) Sacc.
Simethis mattiazzi (Vand.) Sacc.

E as sempre bonitas Silenes não podiam faltar para compor este arranjo silvestre.

Silene scabriflora Brot.
Silene scabriflora Brot.

Entretanto, uma das mais curiosas flores da nossa região está também em floração. Falo das pútegas (Cytinus hypocistis (L.) L. ), plantas que parasitam os Cistus.

Cytinus hypocistis (L.) L.
Cytinus hypocistis (L.) L.

E, por falar em Cistus, a tarde não terminaria sem voltar um pouco de confusão com a família Cistaceae. É que nem todos os brancos que se podem observar no Pinhal são os Cistus salviifolius. Hoje encontrei também Cistus psilosepalus Sweet. Aqui fica

Cistus psilosepalus
Cistus psilosepalus Sweet

Felizmente a tarde já ia longa. Se o dia continuasse por muito mais tempo, não sei que tamanho poderia ter este post!

A tarântula arrumadinha

Embora por vezes seja apelidada de “a tarântula ibérica”, a Lycosa hispanica (Dufour, 1835) não é uma verdadeira tarântula. Na verdade, pertence a uma família diferente (Lycosidae ao invés de Theraphosidae) e a sua relação com os monstros que povoam alguns pesadelos é bastante remota.

As fêmeas desta espécie, porém, podem alcançar até 7 cm de envergadura. Tamanho suficiente para imporem algum respeito.

Não sendo uma espécie rara, os seus hábitos crepusculares e noturnos justificam os poucos avistamentos deste animal. A sua toca caraterística, cuja entrada é construída com restos de folhas secas, revela facilmente a presença deste aracnídeo. No Pinhal do Rei é fácil encontrá-las em locais áridos e soalheiros, nomeadamente em talhões não arborizados ou em aceiros amplos.

Embora desde há muito conheça as suas tocas, o animal tem-me vindo a escapar. Em anos anteriores, as minhas tentativas de a fazer sair, assustando-a com uma palhinha ou até com água, revelaram-se infrutíferas. Hoje encontrei mais algumas.

Toca de Lycosa hispanica

Toca de Lycosa hispanica

Enquanto admirava o trabalho deste animal, martirizando-me por mal o conhecer, ocorreu-me que o trabalho investido nesta construção revelava um zelo e aprumo bastante elevados. Alguém que se esforça desta forma para atingir a perfeição, nunca aceitaria um só galho fora do sítio. Hummm…

Vai daí, deixei cair uma caruma na abertura da toca.

A toca desarrumada

E depois esperei. Mas não foi uma longa espera. Dois ou três minutos depois, já a caruma mexia. E então…

Lycosa hispanica

Lycosa hispanica

Lycosa hispanica

Lycosa hispanica

Lycosa hispanica

Depois da casa arrumada, ao aperceber-se que estava a ser vigiada, logo retomou o seu esconderijo, mas ainda numa posição que lhe permitisse observar os meus movimentos…

Lycosa hispanica

Depois de mais alguns minutos a jogar às escondidas, em que ela subia quando eu me afastava e se recolhia quando eu me aproximava, optei por deixá-la em paz, dando-me por satisfeito com a sorte que tive.