Situada numa colina fronteira ao morro do Castelo de Leiria, a Capela de Nossa Senhora da Encarnação é um templo do século XVI que veio substituir um outro, mais antigo, dedicado a São Gabriel.

Da primitiva ermida, pouco se sabe para além do seu padroeiro. O Couseiro refere que ambos os santos (São Gabriel e Nossa Senhora da Encarnação) já seriam venerados no local. Após um milagre ocorrido em 1588, a Senhora da Encarnação ganhou um maior destaque.

O Couseiro, ou Memórias do Bispado de Leiria é uma obra de um clérigo anónimo do século XVII que relata os primórdios da diocese de Leiria. Embora alguns dos seus relatos não possam ser seguidos literalmente, têm uma inegável relevância enquanto memória da tradição religioso-popular leiriense.

Diz, então, o Couseiro:

…supposto que a ermida sempre conserva a invocação de S. Gabriel, até que no anno de 1588, aos 11 dias do mez de julho, estando na dicta ermida a marqueza de Villa Real, D. Filippa, com muita gente, a Senhora fez um notavel milagre a uma Susana Dias, do logar das Córtes, que havia 28 annos que estava aleijada das pernas, que tinha sesões; approvou-se logo o milagre, e no dia seguinte o cabido da cathedral foi, em procissão, á ermida dar graças á Senhora, e se disse missa cantada, e assistiu grande concurso de povo: apoz este continuou a Senhora os milagres, e foram tantos, que em uma tarde, vespera da festa, e na noute seguinte, se affirmou que foram dezoito. Fez logo o cabido doação, para as obras da Senhora, de todas as offertas que n’aquelle anno viessem á dicta ermida, que foi cousa muito grandiosa; tractou-se de fazer nova ermida, e junctaram os materiaes com muita brevidade e com tanta devoção, que até as donzellas nobres que iam á ermida, levavam o com que podiam para as obras. Em os 24 dias do mez de setembro do dicto anno de 1588, sendo bispo D. Pedro de Castilho, foi o cabido da cathedral, processionalmente e com cruz, mas não levantada, e o duque D. Manoel de Menezes e sua filha, D. Brites de Lara; disse o deão a missa com muita solemnidade de musica e as charamellas do duque, e benta a primeira pedra, que tinha esculpida a era, cruz e nome da Senhora, em uma padiola, toldada de panos de sêda, foi levada ao alicerce; levava-o o duque d’uma parte, o deão, o diacono e sub-diacono das mais, com oito tochas e as chamarellas, e se assentou da parte do evangelho, para o norte, no principio do alicerce, juncto á porta principal, e se continuou a obra até se pôr no estado em que se vê; e a Senhora continuando as maravilhas que obrava, entre as quaes foi uma, na mesma parte em que se principiou a obra, cair uma grande pedra sobre um homem dos que n’ella trabalhavam sem lhe fazer mal algum, de que se poz um letreiro na mesma pedra para dar notícia do milagre: muito ajudou o bispo a esta obra, assim com esmolas suas, como do que applicava para ella das despezas da justiça, e tambem mandou fazer a traça.

No anno de 1603 caiu um raio sobre a porta principal d’esta ermida, e outro no anno de 1606.

Não sendo possível confirmar os pormenores mais milagrosos do texto, é certo que as inscrições na pedra lá estão, tal como indica o Couseiro.

Aqui se pôs a primeira pedra...
Aqui se pôs a 1ª pedra a 24 de setembro de 1588. Presentes o Cabido e Duque de Vª Real e muito povo
Sem dano maior outro tanto, esta pedra tombou por cima de um homem e não lhe fez mal algum.
Nossa Senhora da Encarnação fez o primeiro milagre...
N. Sra. da Encarnação fez o 1º milagre a 11 de julho de 1588 e logo se fez em 6 anos esta igreja.

De um ponto de vista arquitetónico, o destaque vai para a galilé que envolve a fachada frontal e as laterais do templo. Aquando da minha visita, apenas estava presente a estátua de São Gabriel. O nicho onde estaria a Senhora da Encarnação encontrava-se vazio.

São Gabriel
São Gabriel na Capela de Nossa Senhora da Encarnação

A escadaria que sobre à capela é muito mais tardia (segunda metade do século XVIII) e dever-se-á à intervenção do bispo D. Frei Miguel de Bulhões e Sousa. O estilo monumental deverá ter sido uma tentativa (algo frustrada) de imitar outras escadarias monumentais que estavam na moda na época.

Julgo que terá havido alguma falta de visão na sua construção. As escadas deveriam ter uma maior simetria com a entrada do templo, e poderiam, facilmente iniciar-se um pouco mais abaixo. Dois pequenos pormenores que lhe dariam toda uma nova dinâmica.

A escadaria para o Santuário de N. Senhora da Encarnação
Nossa Senhora da Encarnação
Santuário de Nossa Senhora da Encarnação

Entretanto, com o passar dos séculos, outros milagres e prodígios foram acontecendo na região (primeiro nos Milagres, depois em Fátima) e as romarias vão abandonando os cultos mais primitivos, substituindo-os por outros mais modernos. Hoje, a Senhora da Encarnação está quase esquecida de todos, exceto talvez dos mais devotos, ou de quem quer que procure um local para estar em sossego, longe do bulício da cidade lá em baixo.

Santuário de Nossa Senhora da Encarnação

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