O dia amanheceu indeciso, com forte possibilidade de chuva. Ainda assim, fartos de um inverno que teima em prolongar-se para lá do razoável, decidimos arriscar o nosso primeiro percurso do ano. Quer pela sua proximidade quer pelo seu baixo nível de dificuldade, optámos pela caminhada ao longo da ribeira da Fórnea.

Percurso na Fórnea

Trata-se de um percurso pedestre linear, com cerca de 1,5 km de extensão (3 km ida e volta), bastante acessível. Nesta altura do ano, sobretudo após as grandes chuvadas que alimentam as nascentes da ribeira, o local é bastante concorrido. Hoje, porém, fomos os primeiros caminhantes a chegar e o trilho era só nosso.

O percurso tem inicio junto a Alcaria, na estrada que liga Porto de Mós a Alvados (39°34’08.4″N, 008°47’40.3″W). O mais elementar bom senso aconselha a deixar o carro na berma da estrada, junto ao inicio do trilho, mas há quem o leve muito para lá do permitido. Para um percurso deste tamanho, é uma opção totalmente disparatada.

As primeiras centenas de metros do percurso desenvolvem-se ao longo da ribeira da Fórnea, junto a campos de cultivo e velhos olivais semi-abandonados. Aqui e ali, as primeiras flores primaveris começam, finalmente, a despontar, colorindo o verde dos campos com apontamentos de cores vivas.

Entretanto, chegamos a um dos locais mais emblemáticos deste percurso: a cascata da ribeira da Fórnea. É o local procurado pela maioria dos caminhantes para as inevitáveis sessões fotográficas. Quase seca durante os meses de verão, a ribeira transforma-se e, nos invernos mais rigorosos, oferece-nos um espetáculo de água em fúria.

Para lá da cascata, a paisagem começa a mudar. Os campos mais ou menos abertos vão dando lugar a zonas de vegetação mais densa e, de forma gradual, as paredes das encostas vão-se aproximando revelando o enorme anfiteatro natural da Fórnea.

A pequena mas irrequieta ribeira vai acompanhando os nossos passos, formando pequenas cascatas aqui e ali. Em determinado ponto, o suave percurso sofre uma reviravolta. Chegamos ao sopé da encosta e, daqui em diante, é sempre a subir até atingirmos a principal nascente da ribeira: trata-se de uma exsurgência chamada Cova da Velha. 

 

A subida é íngreme, um pouco acidentada e, sobretudo no inverno, escorregadia, pelo que requer uma atenção redobrada. Conforme vamos subindo a encosta e a paisagem se vai revelando, porém, o perigo e o cansaço são facilmente esquecidos.

A Cova da Velha é uma gruta, penetrável durante a estação seca, mas que se torna na mais importante das nascentes da ribeira durante a época das chuvas. De um ponto de visto geológico, consiste numa exsurgência cársica. Hoje encontrámo-la totalmente inundada e bastante ativa.

 

Após uma lenta e cuidadosa descida de volta à base da encosta, dedicamos o caminho de volta a observar as flores que começam a despontar nas margens dos caminhos e nos campos circundantes. Os alecrins são uma constante ao longo do percurso. Aqui e ali, as pascoinhas e os loureiros (alguns dolorosamente desramados por caminhantes sem noção) perfumam o caminho. Pequenas flores primaveris, invisíveis aos olhares mais descuidados, oferecem uma singela beleza à paisagem. Algumas orquídeas, com o seu singular exotismo, são a cereja no topo do bolo.

 

Embora, nesta altura do ano, a Fórnea seja um local frequentado para lá do que seria razoável numa área natural e protegida, é possível desfrutar da tranquilidade do local se optarmos pelas horas mais matinais. Acabámos por encontrar um casal durante a caminhada de ida e cerca de uma quinzena de pessoas no regresso. Um número bastante aceitável.

Com o avançar da estação seca, o interesse das “massas” vai esmorecendo mas a Fórnea continua a convidar à descoberta de uma paisagem cársica de excelência e de uma fauna e flora muito caraterísticas. Vale cada um dos passos – mesmo no esforço extra para chegar à Cova da Velha.

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