As surpresas e as questões em aberto são uma inevitabilidade para quem quer que faça investigação genealógica. Consoante o número de antepassados vai aumentando (numa progressão geométrica avassaladora) os pequenos casos vão-nos fugindo da memória, substituídos por novas questões e surpresas. A melhor forma de perpetuar a descoberta é manter um registo escrito.

Um dos meus sétimos-avôs, António Gomes de seu nome, levantou-me algumas suspeitas e fez-me realizar uma pesquisa exaustiva à sua vida. (Os resultados aqui apresentados seguem uma ordem cronológica que não corresponde à ordem em que fui pesquisando os vários eventos.)

O António era o oitavo de nove filhos do casal João Antunes e Maria Gomes. Nasceu em 9 de janeiro de 1730, em Asseiceira, freguesia de Freiria, concelho de Torres Vedras. Eram seus irmãos: Luiza (1708), Joseph (1711), António (1714 – deve ter falecido, e daí a reutilização do nome), Maria (1717), Manuel (1720), Vicência (1724), Pascoal (1727) e Quitéria (1732).

Diz o seu registo de batismo (transcrito para português moderno):

Aos quinze dias do mês de Janeiro de mil setecentos e trinta anos, nesta Igreja de S. Lucas da Freiria, termo de Torres Vedras, baptizou de minha licença o Padre Luis Franco da Silva, a António, que nasceu a nove do dito mês, solenemente lhe pôs os Santos Óleos, filho de João Antunes, e de Maria Gomes, moradores no lugar da Asseiceira, desta freguesia e recebidos nesta Igreja. Foram padrinhos António Bernardes, morador neste lugar da Freiria; e Teresa de Jesus moradora no lugar da Aboboreira freguesia de S. Pedro dos Grilhões da Azueira, e por verdade fiz este assento hoje dia, mês, e era, et supra.

O Pároco Diogo Henriques

Batismo de António
Registo de batismo de António

 

É um registo típico sem qualquer aspeto digno de nota. A propósito da sua infância não resta qualquer outro registo.

É em 1754, aos 24 anos, que o iremos reencontrar, agora em Mafra. Não é uma mudança surpreendente. A obra do Palácio Nacional de Mafra estava em curso e a presença dos operários, dos religiosos e dos nobres faziam desta vila um local com movimento e potencial para começar um nova vida.

Foi isso que fez o António. Em 23 de abril de 1754, é ali que casa com Maria Duarte.

Em vinte e três de Abril de mil setecentos e cinquenta e quatro em esta Igreja de Santo André da Vila de Mafra, em minha presença e de Manuel Nunes (…) e de João Francisco (…) António Gomes filho de João Antunes e de Maria Gomes, baptizado na freguesia de S. Lucas da Freiria, com Maria Duarte, filha de Miguel Duarte e de Domingas Antunes dos (…) de que fiz este assento que com as testemunhas assinei

João Francisco
Francisco Gonçalves
Manuel Nunes

António Gomes + Maria Duarte
Registo de casamento de António Gomes com Maria Duarte

 

Um evento que é, ainda, um exemplo de normalidade. É daqui em diante que situações mais invulgares se sucedem.

Este casamento acabou sem filhos e de forma trágica. A esposa, Maria Duarte, veio a falecer em 1 de junho de 1755, isto é, cerca de 13 meses após o casamento:

Em o primeiro de Junho de mil setecentos e cinquenta e cinco faleceu Maria Duarte, mulher de António Gomes, sapateiro da praça, com todos os sacramentos. Foi sepultada na Igreja e não fez testamento, de que fiz este assento que assinei.

Francisco Gonçalves

óbito de Maria Duarte
Registo de óbito de Maria Duarte

 

Ficamos a saber que o nosso António, afinal, exercia a profissão de sapateiro na praça. O registo de óbito da esposa não fornece pormenores mas presumimos, à partida, ter sido alguma doença ou quem sabe, um acidente.

Aquando do falecimento da esposa o António estava com 25 anos. Tinha, ainda, uma vida pela frente. Ninguém o poderá julgar por ter decidido voltar a casar-se. Assim fez, três anos depois, em 27 de novembro de 1758, com Joana Maria.

Em os vinte e sete de Novembro de mil setecentos e cinquenta e oito nesta Igreja de Santo André da vila de Mafra, em minha presença e de Manuel Nunes, tesoureiro, e de Manuel Gomes, da Vila e de outros muitos que presentes estavam por testemunhas se casaram por palavras de presente em face da Igreja, António Gomes filho de João Gomes e de Maria Gomes da freguesia de S. Lucas da Freiria, com Joana Maria, filha de António João e de Antónia Francisca, da Ribeira, de que fiz este assento que com as testemunhas assinei.

Manuel Gomes
Francisco Gonçalves
Manuel Nunes

casamento de António Gomes com Joana Maria
Registo de casamento de António Gomes com Joana Maria

 

Entretanto, a vida em meados do século XVIII seria, certamente, muito dura. Talvez isso justifique o falecimento da Joana, em 20 de janeiro de 1762, isto é, cerca de 13 meses após o casamento.

Em os vinte de janeiro de mil setecentos e sessenta e dois faleceu Joana Maria, mulher de António Gomes, da Praça Real, com todos os sacramentos. Foi sepultada na Igreja e não fez testamento. De que fiz este assento que assinei.

Francisco Gonçalves

óbito de Joana Maria
Registo de óbito de Joana Maria

 

Também este segundo casamento do António terminou sem filhos. Nesta altura, agora com 32 anos, talvez o António começasse a imaginar que a vida de casado não lhe estava destinada.

Daí que, no final desse mesmo ano de 1762, se tenha envolvido com uma moça solteira, a Antónia Maria (minha sétima-avó), da qual viria a ter uma filha fora do casamento: a Maria Antónia, minha sexta-avó.

Em os dois de setembro de mil setecentos e sessenta e três batizou o reverendo coadjutor José Joaquim Dias Raposo a Maria, filha de António Gomes e de Antónia Maria, que nasceu em os quatro de Agosto próximo. Esponsados para que vem de casar. Foram padrinhos Manuel Gonçalves “o bexiga” e Rita, filha de Duarte Ferreira, todos assistentes na Praça Real. De que fiz este assento que assinei.

Francisco Gonçalves

Registo de nascimento de Maria
Registo de nascimento de Maria

 

Julgo que “esponsados para que vem de casar” (se é isso que está efetivamente escrito), pretendia indicar a existência de uma promessa de casamento entre os pais da criança, ou seja, estariam noivos. Assim foi: em 3 de janeiro de 1764 o António celebra o seu terceiro casamento, desta feita com a minha antepassada e mãe da sua filha.

Em os três de janeiro de mil setecentos e sessenta e quatro anos, nesta Igreja de Santo André da Vila de Mafra em presença do coadjutor José Joaquim Dias Raposo e de Gregório da Silva desta Vila e de Manuel Gonçalves do Sobrado morador na Praça Real desta Vila e outros muitos que presentes estavam por testemunhas se casaram por palavras de presente em face da Igreja, António Gomes viúvo segunda vez de Joana Maria, filho de João Antunes e de Maria Gomes da freguesia de São Lucas do lugar da Freiria termo da Vila de Torres Vedras e assistente na Praça Real desta Vila, com Antónia Maria, filha de António Rodrigues e de Maria da Silva, moradores que foram no lugar da Ribeira desta freguesia, de que fiz este assento que assinei com as testemunhas.

Gregório de Sequeira
Francisco Gonçalves
Manuel Gonçalves

Talvez agora, casado pela terceira vez e já com uma filha, a vida pudesse finalmente sorrir ao António. Tudo levaria a crer que sim. Em 2 de outubro de 1764, nove meses após o casamento, nasce o seu segundo filho, Felisberto.

O destino, porém, é caprichoso, e não era esta a vida que estava reservada ao António. Em 2 de fevereiro de 1765, isto é, 13 meses após o casamento, a Antónia Maria, sua terceira esposa, morre também.

Em os dois de fevereiro de mil setecentos e sessenta e cinco faleceu Antónia Maria Ferreira, mulher de António Gomes, sapateiro da Praça Real, com todos os sacramentos. Foi sepultada na Igreja. Não fez testamento, de que fiz este assento que assinei.

Francisco Gonçalves

óbito de Antónia Maria
Registo de óbito de Antónia Maria

 

Como deverão compreender, esta sucessão de esposas num curto espaço de tempo e, sobretudo, o escasso tempo que se mantinham casadas antes de acabarem por falecer, fez-me levantar muitas suspeitas acerca da personalidade deste meu antepassado. Em grande parte, essas suspeitas mantém-se e, por mais completos que sejam os registos paroquiais, não permitem afastar todas as dúvidas.

O que é certo é que, em 1765, agora com 35 anos, o António era três vezes viúvo e tinha dois bebés nos braços. As questões que levantei de seguida foram óbvias: voltou a casar? Cuidou dos filhos?

Não voltou a casar e, embora não saiba nada acerca do futuro do Felisberto, sei que a minha sexta-avó Maria Antónia sobreviveu até à idade adulta, tendo casado e gerado descendência (ou eu não estaria aqui a escrever estas linhas).

Quanto ao António Gomes, faleceu em 8 de dezembro de 1797, quase com 68 anos. Passaram, então, mais de 30 anos depois do falecimento da sua terceira esposa, sem que ele se voltasse a aventurar no sagrado matrimónio. De certa forma, isto parece ilibá-lo um pouco. Talvez tenha sido só um homem com muito azar na vida. O que é certo é que, 200 anos depois, a dúvida permanece e não parece haver forma de a esclarecer.

Em oito de dezembro de mil setecentos e noventa e sete faleceu com todos os sacramentos, sem disposição, António Gomes, viúvo de Antónia Maria, morador da Real Praça, de idade de oitenta e mais anos. Deixou filhos e netos. Foi sepultado no Adro. De que fiz este assento que assinei.

O prior José Joaquim Dias Raposo

óbito de António Gomes
Registo de óbito de António Gomes

This Post Has One Comment

  1. É deveras intrigante esta sucessão de falecimentos precisamente com o mesmo espaço temporal após o casamento!!

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