Marinha Grande, sexta-feira, 15 de Outubro de 2117.

Celebram-se hoje os 100 anos sobre o grande incêndio que devastou o nosso Pinhal do Rei. É o dia ideal para um passeio pela nossa mata. Venham daí comigo!

Chegando à Guarda Nova alugamos uma bicicleta elétrica para o nosso passeio. Existe, para o efeito, um parque instalado numa antiga casa florestal recuperada. Muito prático! Na verdade, todas as casas florestais foram recuperadas e albergam hoje uma diversidade de pólos do Museu Nacional da Floresta com sede no Engenho: centros de interpretação da história da Mata Nacional, centros de investigação dedicados à flora e à fauna do Pinhal, mas também centros de promoção de produtos florestais locais: os medronhos, as camarinhas, os pinhões e a resina. As visitas, escolares ou turísticas, resultam num constante vaivém de pessoas oriundas de todo o país.

Mas está na hora de nos pormos ao caminho. A primeira centena de metros da estrada para S. Pedro de Moel revela uma paisagem bem diferente daquela que os portugueses do século XXI conheceram. Aqui, os pinheiros deram lugar aos carvalhos e castanheiros. Aliás, todo o Pinhal de Leiria está delimitado com esta faixa de árvores resistentes ao fogo. É uma forma de impedir que os incêndios entrem na mata, mas também que dela saiam, protegendo as povoações em redor. Estamos a chegar ao corte para o Tremelgo. Vamos até lá?

Toda a zona do Tremelgo foi reconvertida num gigantesco viveiro florestal. Daqui saem pequeninas árvores para reflorestar Portugal. A azáfama é grande e vêem-se trabalhadores rurais um pouco por todo o lado. No parque de merendas, algumas famílias já se começam a juntar para o almoço. Ali está o velho eucalipto gigante, sobrevivente de uma série de desastres naturais, relembrando-nos que somos meros passageiros e que o Pinhal é muito maior que os interesses da geração que o tem a seu cargo. Um pouco mais adiante o renovado comboio de lata, agora dedicado ao turismo, tem aqui uma das suas paragens obrigatórias no seu percurso entre Pedreanes e S. Pedro de Moel.

Voltamos à ciclovia seguindo o ramal que acompanha as margens da Ribeira de Moel. Toda a área que envolve a ribeira foi renaturalizada. Dizem que em tempos por aqui existiram inúmeras acácias, uma árvore infestante que, mais que o fogo, quase dizimou a nossa floresta. Mas isso é coisa do passado: com ações concretas de controlo biológico e de erradicação ordenada, essa foi uma luta ganha no final do século XXI. Hoje, as margens da ribeira são um paraíso de frescura, de grandes carvalhos, salgueiros, amieiros e loureiros, de fontes de água límpida, de esquilos a correr sobre as nossas cabeças, de percursos pedestres, de parques de merendas e de recantos únicos e secretos. Que sorte temos, em poder usufruir deste local!

Procuramos, agora, o caminho para o Ponto Novo onde teremos uma visão panorâmica da nossa mata. Imprudentemente afastamo-nos da ciclovia e ficamos confusos num cruzamento entre aceiros e arrifes. Felizmente depressa surge um guarda florestal que nos direciona no bom caminho. Deste local privilegiado conseguimos observar a imensa mancha florestal do Pinhal do Rei. Agora que chegou o outono, os pinheiros, carvalhos, sobreiros, choupos e pinheiros mansos misturam-se numa profusão de tons de verde e dourado numa extensão a perder de vista. A monotonia do verde pinho da floresta dos nossos antepassados foi substituída por uma miríade de espécies, de padrões e de cores. Uma paisagem que nos tira a respiração e nos enche a alma. Lá para os lados do poente, os velhos pinheiros, sobreviventes de 2017 mantém-se intactos: são um memorial vivo para nos relembrar aquilo que perdemos.

“Catedral verde e sussurrante, aonde A luz se ameiga e se esconde E aonde, ecoando a cantar, Se alonga e se prolonga a longa voz do mar”

A hora já vai longa e voltamos à ribeira procurando uma mesa para o almoço já tardio. Ali, entre o murmurar da água corrente, do canto dos pássaros e do vento que sussurra por entre a folhagem, pensamos em toda uma geração que esperou por este momento. Pensamos naqueles que, num dia trágico, perderam uma floresta, símbolo intemporal do nosso passado e conseguiram, reconhecendo os erros cometidos ao longo de décadas, pegar no melhor conhecimento científico e nas melhores técnicas do seu tempo para construírem a floresta do futuro: o novo Pinhal de Leiria de que hoje vos mostrei um pouco.

This Post Has 2 Comments

  1. Adorei! A promoção de produtos florestais locais: os medronhos, as camarinhas, os pinhões e a resina, poderá ser ainda maior, elevando todo um plano de desenvolvimento rural e local.
    Grata pela leitura que me faz reviver o sonho que sempre tive e que nesta vida já não irei viver…

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