Alguns factos rápidos

  • A Mata Nacional de Leiria, geralmente conhecida como “Pinhal de Leiria” ou como “Pinhal do Rei” situa-se, integralmente, no concelho da Marinha Grande. Ocupa quase 2/3 do concelho: 11.080 ha.
  • O Pinhal do Rei pertence ao “domínio privado do estado Português”. (Interpretem a frase como entenderem. É a designação oficial).
  • Até 1975 as entradas e saídas do Pinhal eram controladas e o acesso ao mesmo era vedado desde o pôr ao nascer do sol através das tristemente célebres tranqueiras.
  • De acordo com o seu plano de gestão, a função primária deste espaço é a produção. Não é uma área protegida.
  • O estado português, como proprietário do Pinhal do Rei, tem uma receita anual média de aproximadamente 3.000.000€ com a venda de madeira e resina desta mata.
  • O mesmo estado, como proprietário, despende menos de 200.000€ por ano na manutenção do Pinhal.
  • O lucro restante não regressa à Marinha Grande.
  • Na realidade, para além da fruição do espaço (e eventualmente do turismo), a Marinha Grande não obtém qualquer retorno financeiro do Pinhal do Rei.

O incêndio no Pinhal de Leiria em 15 de outubro de 2017

No fatídico dia 15 de outubro de 2017, mais de 500 incêndios assolaram o norte e centro de Portugal. Um deles, com início na Burinhosa, poucos quilómetros a sul da Marinha Grande, propagou-se com elevada rapidez para norte através da Mata Nacional, sem parar nos aceiros ou arrifes, saltando estradas e rios, pela noite dentro, acabando por ser extinguir cerca de 40 km a norte do seu ponto inicial, atravessando três matas nacionais e quatro concelhos.

A contabilidade final revela-se pior que as primeiras previsões: 86% do Pinhal do Rei foi consumido pelas chamas.

Este torna-se, assim, o mais grave incêndio no Pinhal de Leiria desde que há memória.  Até à data, o maior incêndio registado terá sido o de 1834, no qual terão ardido cerca de 5000 ha, seguido do de 2003 com 2563 ha ardidos.

A meu ver, porém, há muito tempo que o Pinhal do Rei vai ardendo. Na realidade, ardia há décadas com o fogo invisível do abandono, da falta de meios e do desinteresse do seu proprietário (o estado). Tem vindo a arder com a propagação descontrolada das acácias, com aceiros e arrifes transformados em matagais. Tem ardido com as casas florestais em lenta degradação e com as estradas intransitáveis. Não foi por falta de aviso de todos quantos conhecem esta mata. O fogo que agora chegou é apenas a face visível desse fogo lento que já consumia o Pinhal há anos.

O meu Pinhal do Rei

Ao longo da última dezena de anos, terei passado centenas de horas no Pinhal do Rei. No meu Pinhal do Rei. Porque cada um de nós tinha o seu Pinhal, cada um de nós o via com os seus próprios olhos e cada um de nós o viveu de maneira diferente. Por ali caminhei longas horas, sozinho, nas longas tardes de verão, atrás de uma borboleta, ou sentado na caruma à espera de uma aranha em particular, com o canto dos pássaros sempre presente. Ou então, acompanhado, fosse a dois ou com o nosso grupo das borboletas, pela noite adentro, às vezes a passar um frio que só nós conhecemos, outras vezes, há mais tempo ainda, a olhar para as estrelas numa escuridão que é difícil encontrar noutro lado. De certa forma, habituamo-nos a estar no Pinhal sem o ver, porque ele era imutável e sempre presente. Por isso as fotografias dele eram tiradas sem grande cerimónia. “Posso fotografá-lo outra vez amanhã. Ou no dia a seguir.” E assim foi até domingo passado, quando no-lo tiraram para sempre. Agora as imagens banais desse passado demasiado recente ganham uma intensidade dolorosa. Há paisagens que sempre estiveram aqui, a dois minutos de casa, e agora jamais voltaremos a vê-las.

O facebook reage

Existem no facebook, desde há anos, dois grupos dedicados ao Pinhal do Rei. O grupo “Amigos do Pinhal do Rei“, criado em 2011 e o grupo “Amigos do Ribeiro de São Pedro – Marinha Grande“, criado em 2010. Tem, cada um deles, cerca de 800 membros. Nos dias que se seguiram ao incêndio, porém, os grupos multiplicaram-se e são agora perto de uma dezena. Do mesmo modo, surgiram diversas petições e eventos, sejam manifestações ou cordões humanos, uns feitos com mais seriedade e com objetivos específicos e outros que apenas pretendem demonstrar a dor e a raiva que sentimos com a perda deste património. Em apenas duas semanas, o grupo “Petição – Grupo de Amigos do Pinhal Nacional de Leiria” atingiu cerca de 8200 membros, o que revela bem o renovado interesse na recuperação e preservação desta mata nacional.

Infelizmente, como é hábito nas situações em que a emoção impera sobre a razão, não tardaram também a surgir algumas propostas mais inflamadas e outras menos ponderadas, como é o caso daquelas que pretendem uma reflorestação popular da Mata Nacional. Acredito que serão, de um modo geral, ideias que não passarão do mundo virtual para a realidade. E ainda bem.

Alerto

Nem sempre as boas intenções resultam em boas ideias. O Pinhal do Rei, mesmo com todos os problemas que atravessou nas últimas décadas, ainda é possuidor de um património genético único em todo o mundo, resultado de uma seleção que sem tem vindo a efetuar ao longo de sete séculos. Não há pinheiros iguais aos do Pinhal do Rei em lado algum. Levar sementes, de qualquer espécie, para o Pinhal resultaria numa poluição genética que terminaria com a destruição de um património ímpar. Se querem mesmo ajudar, vão destruindo as acácias consoante elas começarem a brotar (e não vai tardar).

  • Todas a iniciativas que pretendem mobilizar a população para a replantação do Pinhal, além de ambientalmente questionáveis serão, provavelmente, crime. O PR tem um proprietário. Bastante zeloso dos seus interesses.
  • Por mais bem intencionadas que sejam, todas as manifestações ou correntes e petições não fazem grande sentido porque:
    • Como proprietário, o estado tem todo o interesse em replantar o Pinhal da forma mais célere e eficaz possível. Daqui só obtém lucro.
    • Cabe-nos a nós, cidadãos, fiscalizar as ações do estado, zelando pelo futuro do Pinhal como floresta organizada e sustentável, contribuindo com sugestões sempre que ocorram consultas públicas sobre o mesmo ou, até, recorrendo à comunicação social, se necessário for.
    • Iniciativas facebookianas não têm grande credibilidade: são como um fogo que arde rápido e depressa se apaga.

Deixem a recuperação das matas nacionais para o estado.

Dirijo-me aos altruístas escrevendo, eventualmente, para aqueles que ainda o são no mundo real e que gostariam de fazer algo de concreto para além do facebook.

Deixem a recuperação das matas nacionais para o estado. Elas são quem menos precisa da vossa ajuda. Há organismos públicos, pagos por todos nós, que têm essa função. Organismos com técnicos especializados, com meios, com formação. A nós cabe-nos apenas vigiar as suas ações, participar nas consultas públicas e intervir quando algo está mal. Se acham que o estado não cumpre os seus objetivos, da próxima vez, não votem nos mesmos. É esse o nosso papel numa sociedade evoluída.
Entretanto, há outros que precisam mais dos vossos braços.

Fora do facebook, longe das cidades e das notícias dos media, há um Portugal envelhecido e triste. Há pessoas que trabalham de sol a sol para ter o que comer e que têm os seus terrenos a encher-se de ervas, silvas e mato porque já não têm forças nem meios para os limpar. São eles, e não as propriedades do estado, quem precisa da vossa boa vontade. Querem ajudar? Larguem o facebook, juntem uma dezena de amigos, comprem uma enxada cada um, naveguem uma centena de quilómetros em direção ao interior do país, parem numa aldeia qualquer à vossa escolha, falem com os velhotes, ofereçam-se para lhes limpar os terrenos. Vão encontrar resistência, os velhotes são, por natureza e necessidade, desconfiados.

Organizem-se. Criem grupos de voluntariado. Dirijam-se às juntas. Expliquem as vossas intenções. Arranjem intermediários.

Façam-se sócios de uma associação ambiental. Se nenhuma for de encontro às vossas expetativas, criem uma nova. Associem-se para lá do facebook. Contactem técnicos e especialistas. Perguntem como, quando e onde agir. Não façam nada à toa ou só porque vos parece que deve ser feito.
As matas e campos do nosso país existem para lá dos noticiários dos fogos e são muito mais que pinhais ou zonas de lazer. São ecossistemas vivos e complexos que todos precisamos, urgentemente, descobrir. Há inúmeras ações de educação ambiental, grupos formais ou informais que nos permitem descobrir os seres que os habitam. Provavelmente esses grupos estão mais próximos do que poderão imaginar, com iniciativas frequentes de descoberta e partilha. Procurem, perguntem, adiram. Pessoas bem intencionadas, que existam para lá da sua conta no facebook serão, certamente, sempre bem vindas.

Descubram a Natureza e apaixonem-se por ela. Porque só se ama o que se conhece e só se protege o que se ama.

Regresso ao Pinhal do Rei

Um par de dias depois do incêndio dei uma volta pela metade sul do Pinhal do Rei. No meio de tanta desolação, alguns pontos verdes de esperança: o parque de merendas do Tremelgo e o seu eucalipto mantém-se lá, o Ribeiro de Moel entre a Ponte Nova e o Canto do Ribeiro está intacto. A montante da Ponte Nova a estrada está fechada e não sei como estão a Felicia ou o Vale dos Pirilampos, mas a perspetiva não é animadora. (Descobri, mais tarde, que esses recantos únicos se perderam neste imenso mar de chamas.)

É notória a diferença na intensidade do fogo em certos locais: rasteiro nalgumas zonas e chegando até à copa das árvores em muitos outros. De qualquer forma, o verde que ainda resta na maioria dos pinheiros ardidos é uma ilusão vã: eles acabarão por secar. Penso que os marinhenses ainda não se mentalizaram para o que aconteceu. Quando os queimados começarem a ser cortados e restarem apenas as dunas é que a real face desta tragédia será visível.

Deixo aqui, no entanto, uma mensagem de esperança. Já tenho dito (embora ninguém goste de o ouvir, parece-me), que os incêndios fazem parte integrante dos ecossistemas mediterrânicos. Sendo certo que não voltaremos a ver o Pinhal tal como o conhecíamos, a nossa vegetação autóctone recuperará com relativa facilidade, porque está preparada para reagir ao fogo. Tudo o que sejam urzes, medronheiros, carrascos, tojos, etc, trarão um colorido único à nossa Mata em poucos anos. Na verdade, talvez tenhamos oportunidade de ver, pela primeira vez, esta paisagem como ela era antes do homem a ter moldado a seu gosto. (A parte realmente má é que as acácias também estão preparadas para reagir ao fogo e fazem-no de forma muito mais violenta que a flora nativa.)

Amigos: o Pinhal do Rei não morreu como apregoam alguns. O Pinhal do Rei não são os pinheiros que o compõem. É muito mais que isso: são 700 anos de história, são memórias, são as dunas brancas, são as urzes, as camarinhas e os medronhos, são as nossas memórias e os passeios. Nada disso arde.

E agora?

Como começar quase do zero com 700 anos de história reduzidos a cinza? Que medidas tomar? Que Pinhal do Rei devemos deixar às próximas gerações? Como seguir em frente quando o nosso mundo, tal como o conhecemos, desapareceu para sempre?

Disclaimer: na verdade ainda não me mentalizei para esta nova realidade. Imagino sempre que o Pinhal ainda está ali. É só seguir a estrada de S. Pedro e logo depois da Guarda Nova ali o encontro, como sempre. A minha mente não consegue conceber, sequer, aquele espaço sem o Pinhal. É demasiado irreal.

Agora, leio nas notícias, o governo deu quatro meses ao ICNF para elaborar um relatório sobre os incêndios nas matas nacionais. Quatro meses. Relatório. Mas e quanto a ações? Ações daquelas imediatas e urgentes que deveriam ter começado no dia a seguir ao incêndio?

O facebook encheu-se de novos grupos de apoio ao Pinhal do Rei, com uma vontade enorme de pôr mãos à obra e reconstruir, refazer. Bem sei que esse é um fogo efémero mas entre tantos milhares de pessoas algumas estariam, certamente, dispostas a fazer algo de concreto. Não caberia às instituições capitalizar toda esta boa vontade? Não se poderiam organizar grupos de voluntários para ações simples mas concretas em prol do Pinhal do Rei? Passaram-se duas semanas e os reacendimentos sucedem-se. Se o ICNF não tem meios humanos, não poderiam ter-se organizado grupos voluntários de patrulhamento, por exemplo?

A zona montante da Ribeira de Moel e dos seus tributários foram fortemente fustigadas pelo fogo, incluindo a zona de proteção das vertentes da ribeira. É urgente desimpedir os leitos de todas estas ribeiras (de Moel, do Tremelgo, do Lagoa das Éguas, do Rio Tinto) sob risco de eutrofização das águas. Sem o suporte de vegetação, as encostas mais pronunciadas irão sofrer uma erosão rápida assim que as primeiras chuvas fortes cheguem, podendo assorear o leito da Ribeira de Moel, inclusive na área não afetada pelo incêndio. É necessário arranjar métodos de suporte artificial das encostas. Esta é uma medida que não pode esperar 4 meses pelo relatório. É urgente!

Promete o ministro que o lucro da venda da madeira queimada será aplicada na reconstrução da mata. Vou ficar vigilante. Temo que quando faltar dinheiro noutro lado, o Pinhal do Rei sirva, como tem servido, de cofre sem fundo.

Uma visão para o futuro do Pinhal

Gostaria que a faixa litoral que não ardeu neste incêndio ficasse intacta. Para sempre. Como memorial. A maioria dela já está em zona de proteção. Parece-me justo que se estenda ao restante espaço não ardido. Pelo menos teríamos oportunidade de ver alguns pinheiros adultos. Seria uma forma de relembrar a paisagem que se foi para sempre.

As casas florestais, deixadas tanto tempo ao abandono, deveriam ser integralmente reconstruidas. Pouco me importa se serão entregues aos novos futuros trabalhadores florestais, ou a associações da região, ou se servirão para turismo rural. São um património marinhense cujo proprietário é o estado e que exige uma recuperação, ponto.

Todos os cursos de água que cruzam o espaço do Pinhal do Rei, sejam eles permanentes ou temporários (e incluindo a lagoa da Saibreira), deveriam sofrer uma intervenção profunda de renaturalização: eliminação de exóticas infestantes (acácias), plantação de vegetação ribeirinha de suporte com corredores ripícolas de folhosas autóctones. Não serviriam apenas como espaços de lazer mas também como barreiras naturais contra os incêndios.

O aceiro exterior deveria ser alargado. O susto que demasiadas pessoas apanharam no passado dia 15 não se pode voltar a repetir. Do mesmo modo, a primeira linha de vegetação da Mata Nacional, junto ao aceiro exterior, deve ser constituída por árvores resistentes ao avanço do fogo.

Muitos de nós culpam a inação do ICNF ao longo da última década (incluindo eu). Houve falta de limpeza dos matos, houve uma expansão descontrolada das acácias, houve um ignorar arrogante de todos os alertas que foram sendo lançados, houve um aproveitamento económico deste espaço sem que pareça ter existido qualquer ligação afetiva ao mesmo. Tudo isso são erros que saíram demasiado caros. No entanto, confesso: assustam-me as limpezas de vegetação decretadas de forma administrativa. Tenho demasiado presente na memória a “limpeza” que fizeram ao Lis. A linha que separa uma limpeza cuidadosa de uma destruição total de habitats é demasiado ténue para que eu possa dormir tranquilo.

Daí, e já que sonhar não paga imposto, desejo que se acabe com a subcontratação de empresas exteriores para realizar trabalhos na Mata Nacional: que se contrate pessoal com formação adequada. Que se façam limpezas, sim, mas por quem sabe o que está a fazer, por quem saiba distinguir entre um medronheiro e uma acácia e respeitando, o mais possível, os habitats das inúmeras espécies que encontram no Pinhal do Rei o seu lar.

Quando recomeçamos do zero, temos oportunidade de fazer tudo bem feito, corrigindo os erros que se arrastam desde tempos imemoriais. Não será, provavelmente, para nenhum de nós mas, daqui a 75 anos, consigo imaginar um Pinhal do Rei mais robusto, resistente, ambientalmente equilibrado. Na verdade, na minha mente, vejo-o mais facilmente do que aquela irreal extensão de negro, tão triste e silenciosa que, ali fora, vai aguardando a chegada da primavera…

 

This Post Has One Comment

  1. Exmo. Senhor Carlos Franquinho agradeço-lhe esta informação bem estruturada e valiosa no seu conteúdo. Gostaria de lhe dar uma informação que o Sr. desconhece certamente mas que não tem nenhuma intenção que não seja mesmo a informativa. Em 10 de Janeiro de 2015 a APILEI-Amigos do Pinhal do Rei, reuniu-se pela 1ª vez em Leiria ( na sede da Fundação Caixa Agrícola ) e posteriormente na Marinha Grande. Em Set/2015, fizemos uma reunião no ICNF em Coimbra, em que apresentámos à Srª Presidente do Conselho Directivo do ICNF as 20 preocupações da Apilei sobre o estado actual da Mata Nacional de Leiria, tendo-lhe entregue um caderno com 26 páginas e fotos coloridas demonstrativos de todo o conteúdo abordado. Regressámos agradados pela recepção e pela atenção com que fomos acolhidos ( 3 elementos nossos ) e o respeito inspirado mas, em 2 anos nada aconteceu a nenhuma daquelas 20 preocupações. Todas se mantiveram e entretanto engrossadas com mais. Nós tivemos o ensejo de termos aparecido com avisos negros, antes da tragédia final, mas nada resolvemos. Como V. diz, agora são muitas as Associações cheias de vigor e, são elas que demonstram à Tutela, o desgosto das populações. Se um dia nos encontrarmos pessoalmente gostaria de lhe mostrar este nosso Caderno Reivindicativo, que foi, porventura, o único oficialmente entrado no ICNF, dando conta de muitas das mazelas que enfermavam ( e algumas ainda enfermam ) na nossa Mata. Um Abraço. Luis Abreu e Sousa

Deixar uma resposta

Close Menu