Memórias Paroquiais de Amor

Memórias Paroquiais de Amor

Após o grande terramoto de 1755, por ordem do Marquês de Pombal, os párocos de todo o reino responderam a um extenso inquérito cujo objetivo era a avaliação geral do estado do território nacional. A transcrição que se segue é uma adaptação para português moderno da resposta dada pelo pároco de Amor, o Cura José Luís Carreira.

Para uma noção mais clara das perguntas a que os párocos deveriam responder, recomendo a leitura da respetiva entrada na wikipédia.

Parágrafo inicial das Memórias Paroquiais de Amor
Relação da freguesia de Amor, Bispado de Leiria

Esta freguesia de Amor (nome que dizem lhe foi posto pela Rainha Santa Isabel no tempo que assistia em Monte Real, que dista daqui uma légua, pois tendo o Rei D. Dinis nesta terra uma amiga, quando a Santa Rainha perguntava por ele, respondia que fora para o seu amor) é termo, Bispado e Comarca de Leiria, de onde dista uma grande légua para a parte de norte.

Está situada junto ao Campo de Sua Alteza (suposto a terra é de Sua Majestade Fidelíssima) para a parte do mar; dessa mesma parte do mar está cercada com uma dilatada charneca, que chega ao pinhal bravo Real, na qual charneca há bastantes lebres, as mais valentes que consta haver em todo este Bispado, e chamadas as Lebres da Francelheira. Desta charneca, que é do povo, se utilizam os moradores desta freguesia para pastagens dos seus gados, e para cortar matos para seus estrumes.

O país é plano e por todas as partes cercado de pinhais mansos, muitos dos quais são de Sua Majestade; uns que o eram já de antigos tempos, e outros por compra que deles se fez aos lavradores no ano de 1755 em que se despenderam 860000(?). De todos os sobreditos pinhais, Reais e não Reais, colhem os naturais desta terra o melhor de dez moios de pinhões britados, que em casca fazem o número de quarenta moios, mas para isto pagam grossas rendas aos senhores dos ditos pinhais; e este é o arvoredo desta freguesia e país, do qual se não descobrem terras senão Regueira de Pontes, Riba d’Aves e Ruivaqueira, aldeias que distam um quarto de légua, e a Vila de Monte Real, que como foi dito, dista uma légua.

Tem esta freguesia quatro aldeias, uma das quais é o Casal dos Claros, que tem sessenta e quatro vizinhos, pessoas de sacramento cento e oitenta e sete; outra é a Coucinheira, que com os Moinhos da Escoura, seus anexos, tem sessenta e dois vizinhos, pessoas de sacramento cento e noventa e duas; outra é Barreiros, que tem Mata da Ruiva anexa, tem cinquenta e seis vizinhos, pessoas de sacramento duzentas e este lugar de Amor, que se compõe de 86 vizinhos, pessoas de sacramento 283, duzentos e oitenta e três, que fazem em toda a freguesia o número de duzentos e sessenta e oito vizinhos, pessoas de sacramento oitocentas e sessenta e duas.

Dentro deste lugar de Amor está a Paróquia, a qual é de alvenaria, com um ?? de azulejo em toda a roda, forrada de madeira de cerne apainelada, menos a capela mor e duas sacristias, que são de abóbada. Seu orago é São Paulo, tem dois altares laterais, um de Nossa Senhora da Conceição e outro de Nossa Senhora do Rosário, no qual há uma irmandade da mesma Senhora, que está dispersa por esta, e pelas freguesias circunvizinhas com mais de mil Irmãos que pagam de anal cada um ano, uma pipa de milho, e no primeiro domingo de cada mês se dão por sortes aos Irmãos quatro dúzias de rosários de contas brancas.

Tem no corpo da Igreja uma capela para a parte do norte de, São Pedro, com sua tribuna de pedra, que é da Ordem Terceira da Penitência, levantada nesta freguesia pela Rainha Santa Isabel, e é a mais antiga da Ordem Terceira que há neste Bispado; tudo consta da Crónica Seráfica, esta Ordem tem mora mas está sujeita ao Comissário da Ordem Terceira de Leiria. Em Domingo de Ramos se faz por este lugar uma procissão da penitência da mesma Ordem com andores de santos da mesma, e no fim dela há sermão, que prega o dito Comissário. Terá esta Ordem mil e quinhentos terceiros e terceiras por todas estas freguesias e pagam, de anal cada um ano, sessenta réis e de entrada duzentos e vinte e outro tanto de profissão.

Nesta paróquia há quatro confrarias que são: do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora do Rosário, dos Apóstolos São Pedro e São Paulo e das Almas. Tem seis vigílias, a saber: do Menino Deus, de São João, de Santo António, de São Sebastião, de Santa Marta e de Santa Luzia.

Há uma só Ermida de São João Batista, na Quinta da Mata da Ruiva, pertencente a João de Sá Correia Sottomaior Alcoforado, assistente na mesma Quinta.

Tem esta freguesia três ribeiras, que todas nascem na freguesia da Marinha, distante desta uma légua para a parte do poente, e correm para o nascente, até se meterem no Campo; uma delas se chama da Escoura, na qual há boas trutas, que se pescam em todo o ano e são primi carpintis (?), tem em suas correntes sete moinhos. Outra é chamada a do Magro e também nela há trutas, e corre por este lugar de Amor e tem três moinhos. A outra se chama do Fagundo que tem cinco moinhos, esta não cria peixes senão ruivacos.

Todas estas ribeiras conservam as suas águas em todo o tempo do ano, ainda nos mais secos Verões, e do Magro se utilizam os lavradores para rego de suas novidades aos Domingos somente, que nos dias da semana são as águas dos Senhores dos moinhos por costume antiquíssimo.

Os frutos que os lavradores colhem em mais abundância, assim das sobreditas ribeiras (ou seus arredores) como do Campo e altos(?) é milho e feijão.

A memória que há de quem florescesse em virtudes é a que consta da Crónica Seráfica do Irmão Sebastião Coxinho, filho desta venerável Ordem Terceira e natural desta freguesia, o qual anda na Sagrada Rota.

Em letras, nem armas, não consta.

Dista esta freguesia da Corte Capital do Reino vinte e três léguas.

Seu Pároco é Cura da apresentação do Exmo P.(?) Bispo de Leiria, com renda de cento e sessenta mil réis.

Não tem conventos, hospital nem casa de misericórdia nem outra coisa notável digna de se escrever.

Por mandado de S. Exa
O cura José Luís Carreira

Parágrafo final das Memórias Paroquiais de Amor

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