Lembro-me quando, há cerca de 30 anos, a minha professora primária nos tentou explicar o que era um ser vivo: – Trata-se, dizia ela, de um ser que nasce, cresce, reproduz-se e morre. Uma definição suficiente para cérebros de 8 anos mas que, por levantar mais questões que aquelas a que pretende responder, não resistiu à passagem do tempo. Afinal, as mulas, que não têm a capacidade de se reproduzir, não serão seres vivos? Os fogos que surgem (nascem) nas florestas, alastram (crescem) e se apagam (morrem), estarão vivos? E um programa de computador? E os cristais que crescem nas grutas?

Um cristal de quartzo. Cresce, mas estará vivo? Fotografia de Didier Descouens.

Poderão parecer ideias sem sentido mas lembro-me que, também na escola primária, nos era pedido que classificássemos determinado “organismo” num de três reinos: “animal, vegetal ou mineral”. Esta divisão tripartida teve origem no trabalho de Carolus Linnaeus, Systema naturae (1735) e conseguiu sobreviver à passagem dos séculos. A obra de Linnaeus revolucionou a Biologia lançando as bases para o sistema de nomenclatura binomial que hoje nos permite classificar todos os seres vivos. Quanto aos minerais, foram retirados desta classificação e, atualmente, os reinos reconhecidos são bastante diferentes daqueles que o autor descreveu (será matéria para um outro post).

Em meados do século XX, Schrödinger definiu a “vida” recorrendo à Segunda Lei da Termodinâmica. Esta lei afirma que a entropia do Universo tende a um máximo, ou seja, o Universo caminha para um estado de “equilíbrio caótico”. De acordo com Schrödinger, a vida tenta evitar (ou adiar) esse caos. (Em consequência, a morte mais não é que a cedência dos átomos de determinado organismo à entropia universal.) Outras tentativas de definição tentam utilizar o conceito de evolução ou a constituição celular dos organismos. Nenhuma delas, porém, parece gerar consenso entre os cientistas.

Então, parece não existir uma definição linear para o conceito de “vida”. Porquê? Em grande medida, porque estamos a procurar uma definição alargada para algo de que apenas possuímos um exemplo: a vida terrestre. Falta-nos, como dizia Carl Sagan, “desprovincializar a Bilogia”. No dia em que encontrarmos o primeiro ser verdadeiramente alienígena (pode ser uma simples bactéria), a nossa noção de “vida” poderá, finalmente, consolidar-se. Por outro lado, se não possuirmos uma definição clara, estaremos nós aptos a reconhecer uma forma de vida extraterrestre quando a encontrarmos?

As cores deste lago em Yellowstone resultam da profusão de uma miríade de micro-organismos. Fotografia de Jim Peaco, National Park Service

Até lá, resta-nos, tal como fez a minha professora primária, definir a vida a partir das suas principais caraterísticas:

  • ordem e organização hierárquica (a vida é composta por pequenas unidades progressivamente mais complexas);
  • resposta a estímulos (tem a capacidade de avaliar e reagir ao ambiente que a rodeia);
  • crescimento, desenvolvimento e reprodução;
  • regulação (os seres vivos conseguem manter a estabilidade do seu ambiente interno, independentemente das condições exteriores);
  • metabolismo (consegue transformar energia e substâncias químicas em componentes celulares).

Trata-se de uma tentativa de definição que pode levar à identificação de “seres” que gozam de uma certa ambiguidade. Um exemplo clássico desta “zona cinzenta” são os vírus: apesar de, geralmente, serem classificados como “não-vivos”, alguns cientistas têm-nos vindo a considerar como “vida não celular”. Talvez, em certa medida, esta “zona cinzenta” da vida seja inevitável. Se considerarmos que a origem dos primeiros seres vivos foi um processo longo e gradual, então terá havido uma fase em que as moléculas estavam organizadas de uma forma não exatamente inerte e não claramente viva.

O rinovírus, responsável pelas constipações comuns. Um ser vivo ou um mero aglomerado químico?

E se, interrogo-me eu, uma nova “vida”, diferente de tudo o que conhecemos, continuar a despontar aqui e ali e nós simplesmente não temos a capacidade de a reconhecer?

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