A Crastinha

A elevação da Crastinha, no Pinhal do Rei, insere-se num extenso cordão dunar  situado a cerca de 2,5 Km da costa e paralelo ao litoral. De acordo com André et al (2001), estas dunas terão sido formadas durante a última pequena idade do gelo (século XVI), quando “as condições climáticas na costa ocidental deveriam ser de ventos fortes, associados a frio seco. Facto que deverá ter facilitado uma intensa mobilização eólica das areias, dando assim origem a dunas tão imponentes”.

O extenso cordão dunar, vista norte a partir da Crastinha
O extenso cordão dunar, vista sul a partir da Crastinha

Durante muitos séculos, a própria expansão do Pinhal do Rei esteve limitada por esta estrutura geológica. As tentativas de plantação de pinheiros a oeste deste cordão dunar revelavam-se infrutíferas: o vento constante limitava-se a arrastar a areia para cima das jovens árvores, impossibilitando o seu desenvolvimento. Apenas no final do século XIX, com a engenhosa construção de um sistema dunar primário artificial entre São Pedro de Moel e Aveiro, se conseguiu, finalmente, domar esta área.

Elevação da duna primária através da técnica do "ripado móvel"
Elevação da duna primária através da técnica do “ripado móvel”

Em 2003, um dos mais violentos incêndios da história do Pinhal do Rei, lavrou em toda esta zona, reduzindo a cinzas 2.563 ha desta Mata Nacional (23% da sua área total). Será necessário recuarmos até 1824 para, de acordo com os dados de Arala Pinto, encontramos uma ocorrência tão grave quanto esta (nesse ano terão ardido cerca de 5.000 ha).

A Crastinha e a área ardida no incêndio de 2003
A Crastinha e a área ardida no incêndio de 2003

Dez anos volvidos após o grande incêndio, toda a zona apresenta uma vegetação arbustiva espontânea semi-natural. Apesar da proliferação das acácias nalgumas áreas, abundam também as giestas, os medronheiros e inúmeras herbáceas que resultam num colorido algo invulgar nesta Mata.

Euproctis chrysorrhoea (Linnaeus, 1758)

A E. chrysorrhoea é uma borboleta da família Erebidae, subfamília Lymantriinae. As suas lagartas vivem num ninho comunitário de onde saem em busca de alimento. Têm predileção por uma grande variedade de arbustos e árvores de folha caduca (Quercus, Prunus, Malus, Pyrus, Rubus, etc). No Pinhal do Rei, porém, sempre as vi em Arbutus unedo (medronheiro).

Um ninho típico de E. chrysorrhoea
Um ninho típico de E. chrysorrhoea

A proliferação de E. chrysorrhoea na Crastinha

Em Julho de 2012, em conversa com o Ricardo Machado, percebi que na zona da Crastinha estas borboletas seriam bastante abundantes – ele falava-me de dezenas ou centenas de indivíduos a descansar nas folhas em pleno dia. Achei curioso, mas acabei por não ir ao local investigar.

Adultos de E. chrysorrhoea em Julho de 2012
Adultos de E. chrysorrhoea em Julho de 2012

Só na semana passada, quando finalmente passei pelo local, percebi a dimensão que abrange a proliferação desta espécie. A generalidade dos medronheiros da zona estão repletos de ninhos. As lagartas, depois de quase desfolharem e secarem a sua planta hospedeira habitual, alastram pelas plantas mais próximas em busca de alimento.

Um medronheiro com dezenas de ninhos e já a  secar
Um medronheiro com dezenas de ninhos e já a secar

Não é fácil explicar esta ocorrência excecional. No facebook, diversas pessoas referiram a questão do vento e a forma como ele influencia a dispersão dos indivíduos adultos. Efetivamente, conhecendo a história e a meteorologia do local, esta suspeita pareceu-me bastante plausível: as minhas observações tinham sido efetuadas imediatamente a leste do cordão dunar, uma zona naturalmente abrigada. Talvez na vertente oeste, mais sujeita ao vento marítimo, a situação fosse diferente?

Não. Uma segunda visita ao local revelou que, uma vez no topo da duna, os arbustos virados a oeste apresentam a mesma profusão de ninhos.

Medronheiro na vertente oeste da Crastinha
Medronheiro na vertente oeste da Crastinha

Outra explicação deverá existir e não será, certamente, muito fácil de encontrar. Há inúmeras perguntas que ficam sem resposta pois não disponho de tempo suficiente para me dedicar ao assunto. A primeira que me ocorre parece-me a mais lógica: “qual a extensão da área abrangida por este desequilíbrio?”

Outra das perguntas a que tentei responder nesta segunda visita ao local, foi a questão relacionada com a alimentação das lagartas na ausência de medronheiros. Na minha primeira passagem pelo local, apercebi-me que se dispersavam um pouco por toda a vegetação – mas isso não significa que dela se alimentem. Hoje, mais atento, observei lagartas desta espécie em Asteraceae, em Cistus, em Rubus,  em Verbascum e em Prunus. A única planta de que as vi alimentar-se, porém, foi Cistus salviifolius.

Lagarta de E. chrysorrhoea alimentando-se de uma flor de C. salviifolius
Lagarta de E. chrysorrhoea alimentando-se de uma flor de C. salviifolius

Por outro lado, o único ninho que observei numa outra planta que não medronheiro, encontrava-se em Prunus sp.

Ninho de E. chrysorrhoea em Prunus sp.
Ninho de E. chrysorrhoea em Prunus sp.

Sem qualquer intervenção humana, a natureza se encarregará de restaurar o equilibro: consoante os medronheiros na zona forem escasseando, também o boom destes lepidópteros chegará ao seu fim. Talvez nunca surja uma explicação objetiva para este acontecimento. Afinal, a nós cabe-nos apenas fazer as perguntas. A Natureza logo se encarregará de fornecer as explicações, caso estejamos atentos às respostas.

 

Referências bibliográficas

ANDRÉ, J., REBELO, F., CUNHA, P., Morfologia dunar e movimentação das areias entre a lagoa da Ervedeira e o limite sul da Mata Nacional de Leiria, 2001

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