A propósito das inundações que assolam o país um pouco por todo o lado (também em Leiria), divulgo aqui uma notícia publicada pelo jornal leiriense “O Radical”, em 21 de Dezembro de 1911.

(O texto que se segue mantém a grafia com que foi publicado originalmente).

O Temporal

Grandes inundações

O terrivel temporal que ha algumas semanas açoita o nosso paiz assumiu na segunda e terça feira, em Leiria, proporções gigantescas.

Na segunda feira á tarde começou a chover caudalosamente sendo as grossas cordas d’agua batidas por um vento furioso, que ameaçava arrazar tudo. A tempestade prolongou-se terrivel por toda a noute e pelo dia de terça feira adeante, não cesssando nunca de chover. Por isso, logo ás primeiras horas da madrugada de terça-feira, o Rio Liz enchia assustadoramente, saltando pouco depois do leito e alagando os terrenos marginaes dos arredores da cidade.

Ás 9 horas, devido ao leito ter subido acima da cidade, as sargêtas começaram a não receber a agua da chuva, que continuava a cahir furiosamente, e d’ahi a pouco eram invadidos alguns estabelecimentos no largo de S. João e Arco de Sant’Anna. Estabeleceu-se logo serviço de bombeiros, que ficaram de prevenção para prestar soccorros no caso de serem precisos.

A agua do Rio galgou o muro no bairro dos Anjos, bloqueando a Fonte Quente e algumas casas proximas, estando prestes, por momentos, a acontecer o mesmo no marachão, defronte do Theatro Maria Pia. Foram inundados os campos das Olhalvas, e as duas margens do rio até aos campos da Baroza, que apresentam um espectaculo soberbo. Até á foz do Liz tambem houve inundações em varios sitios, ficando a estrada da Figueira debaixo d’agua em grande extensão.

A ponte das Mestras, na Baroza, foi tamtem coberta pelas aguas, bem como a estrada, ficando por isso as communicações com a Marinha interrompidas por esta via.

Os prejuizos

A agua causou grndes prejuizos nas margens do Liz, que foram arrazadas, sendo muitas arvores arrancadas. Os moinhos soffreram tambem muitissimo.

Na cidade houve prejuizos nos estabelecimentos inundados pela agua, e na fabrica da luz electrica, sendo destruida a valla que conduz a agua á mesma, na extensão de 30 metros, motivo porque a cidade ficou ás escuras, pois foi impossivel pôr a machina a vapôr a funccionar. É espantoso isto mas é verdade!

Não nos consta que tenha havido victimas, se bem que estivessem em perigo varias pessoas, entre ellas o sr. Manuel Carvalho, negociante de arroz, que ia morrendo afogado, sendo arrastado pela corrente uma egua em que montava e que foi salva.

Na cidade foram vistos passar muitos destroços da tempestade, entre elles, arvores, cascos vasios, roupas e um jumento ainda vivo. Tambem foi visto passar um guarda-chuva e um chapeu, suppondo-se na occasião que pretencessem a alguma victima do temporal.

Á camara

É conveniente que a Carama tome providencias sobre a illuminação da cidade, obrigando o empreiteiro das obras da luz electrica a pôr a valla em condições de resistir ao impeto das aguas, pois a cidade não póde estar á mercê de quem olha apenas para os interesses proprios. Agora ficou a cidade ás escuras, debaixo de um temporal violentissimo, poque a valla foi destruida. Isto não deve tornar a acontecer, tanto mais que na fabrica ha uma machina a vapôr que já foi precisa de repente duas vezes sem poder ser posta a funccionar.

É tambem uma necessidade inadiavel proceder á limpeza dos canos da cidade, serviço que já se não faz ha dezenas d’annos e que evitaria as inundações dentro da mesma, se fosse acompanhado com uns trabalhos destinados a dar maior queda á valla geral junto á sua confluencia com o rio.

Á Camara recommendamos estes assumptos, que ella tomará em consideração, visto tratar-se da vida, da segurança e dos interesses dos habitantes da cidade.

Cheia do Liz, 1911
Cheias do Liz em 1911

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