1 – Os espaços verdes urbanos

1.1. As árvores de grande porte nas ruas da cidade

Os benefícios que as árvores trazem ao ambiente urbano são inegáveis. Não se trata, neste aspeto, de um verdadeiro interesse ecológico uma vez que os ganhos com o sequestro de carbono destas árvores são, certamente, mínimos. O seu verdadeiro objetivo será, então, essencialmente estético. Efetivamente, as árvores em ambiente urbano são uma forma de contrariar a artificialização do meio em que vivemos: num mundo em que, cada vez mais, se torna difícil arranjar tempo para partir em busca do natural, elas trazem um pouco de Natureza até nós. Embora seja fácil não reparar nelas num dia-a-dia rotineiro, estas árvores contribuem, certamente, para o bem estar psicológico das populações. Torna-se necessário, porém, pesar as suas vantagens e desvantagens de uma forma desapaixonada. Invariavelmente, encontram-se árvores de grande porte nos passeios da cidade, dificultando o movimento dos peões e impossibilitando totalmente a circulação de pessoas em cadeiras de rodas (vejam-se, a título de exemplo, aquelas que surgem no passeio da Av. Victor Gallo em frente ao cemitério e na Estrada de Leiria em frente ao Hotel Cristal). Estas “heranças”, resultado de plantações de um passado já remoto, estão hoje ultrapassadas e são acima de tudo, um incómodo constante a quem circula nestes passeios. É importante repensar tanto as espécies como os locais a plantar. É fácil optar por espécies exóticas de crescimento rápido e que, em poucos anos, pintam a paisagem em tons de verde. Não creio, porém, que esta seja a solução mais indicada: de ano para ano tem-se vindo a reconhecer a importância da biodiversidade como pilar fundamental dos serviços dos ecossistemas e do desenvolvimento sustentável. A plantação de espécies exóticas em detrimento das espécies autóctones apenas contribui para a descaraterização do nosso meio natural.

Árvores nos passeios: bastaria mover o passeio um metro para o lado.
Árvores nos passeios: bastaria mover o passeio um metro para o lado.

Proponho, assim, que o futuro Plano Diretor Municipal, reconheça a importância de optar por espécies de árvores nativas da nossa região, com porte adequado ao local a que se destinam. Espécies como o pinheiro manso (Pinus pinea L.), o carvalho cerquinho (Quercus faginea Lam.), ou mesmo o medronheiro (Arbutus unedo L.) não serão, certamente, menos belas que os tradicionais plátanos ou os exóticos jacarandás. Não se pretende, com esta sugestão, sugerir um corte radical das árvores já existentes. Sempre que possível (e nalguns casos é possível), os passeios poderão ser adaptados para contornar os espécimes que atingiram um perímetro demasiado elevado para permitir a circulação fluída dos peões. Pretende-se, essencialmente, evitar os erros do passado e zelar pelo interesse das gerações futuras.

1.2. Os Parques Urbanos

A construção ou reabilitação dos diversos Parques Urbanos que hoje encontramos na Marinha Grande foram intervenções de grande sucesso. A população marinhense (e mesmo dos concelhos vizinhos) aderiu a estes novos parques onde encontra espaço para um contacto cómodo e frutuoso com um meio seminatural. Apesar de tudo, porém, poder-se-ia ter ido um pouco mais longe. Não basta termos uma área plantada de verde, por maior que seja a sua extensão, para que tenhamos um ecossistema naturalmente equilibrado. Para que o conceito de corredor verde se possa aplicar, é necessário que as espécies autóctones encontrem nestes locais um habitat natural que lhes permita prosperar. Embora estes espaços sejam visitados por algumas aves selvagens, tudo o mais parece estar excessivamente artificializado.

Parque da Cerca: um verde artificial.
Parque da Cerca: um verde demasiado artificial.

Seria relativamente fácil alterar esta situação por forma a obtermos espaços autenticamente verdes, representativos das espécies indígenas da nossa região. A plantação em média escala de vegetação nativa de diferentes espécies de ervas e arbustos (carrasco, rosmaninho, medronheiro, urze, estevas, gilbardeiras, etc.), traria consigo inúmeras espécies de borboletas e outros insetos que seriam uma mais valia, não só por daí resultar o incremento na biodiversidade destes locais, mas também por serem eles a base da generalidade das cadeias alimentares naturalmente equilibradas.

2 – Os espaços verdes naturais

2.1. O Pinhal do Rei

Apesar da gestão deste espaço estar sujeita ao seu próprio Plano de Gestão, trata-se de uma área seminatural de grande interesse regional, à qual não se pode alhear o Plano Diretor Municipal da Marinha Grande. A nível faunístico, para além das espécies RELAPE (Raras, Endémicas, Localizadas, Ameaçadas e em Perigo de Extinção) referidas no Relatório Fundamentado da Avaliação da Execução do PDM da Marinha Grande, parece-me oportuno juntar-lhe algumas outras, nomeadamente:

  • Euphydryas aurinia Rottemburg, 1775 (Insecta, Lepidoptera, Nymphalidae). Observação pessoal. Espécie protegida pelo Decreto-Lei no 140/99, de 24 de Abril, com a redação que lhe é dada pelo Decreto-Lei no 49/05, de 24 de Fevereiro, anexo B-II, transposição da Diretiva Habitats (92/43/CEE), de 21 de Maio de 1992, Anexo II e pelo Decreto-Lei no 316/89, de 22 de Setembro, transposição da Convenção de Berna, Anexo II.
  • Sphinx ligustri Linnaeus, 1758 (Insecta, Lepidoptera, Sphingidae). Observação pessoal. De acordo com os dados atuais, a população do Pinhal do Rei corresponde ao limite sul de distribuição nacional desta espécie.
  • Ectropis crepuscularia (Denis & Schiffermüller, 1775) (Insecta, Lepidoptera, Geometridae). Observação pessoal. De acordo com os dados atuais, a população do Pinhal do Rei corresponde ao limite sul de distribuição nacional desta espécie.
  • Lluciapomaresius anapaulae (Schmidt, 2009) (Insecta, Orthoptera, Bradyporidae). Espécie descoberta e descrita pela primeira vez a partir de exemplares recolhidos no Pinhal do Rei. Consultar, a este propósito, “Orthoptera do ecossistema pinhal“, de Ana Paula Teixeira Martinho.

Deverá ainda considerar-se como relevante a ocorrência de uma segunda geração de processionárias (Thaumetopoea pityocampa (Treitschke, 1834)). Apesar da má fama associada a esta espécie, a ocorrência desta segunda geração pode revelar-se de grande interesse científico (a impossibilidade de reprodução entre as diferentes gerações da mesma espécie poderá resultar num raro caso de especiação simpátrica). A este propósito: “Caracterização genética de uma população portuguesa de processionária do pinheiro (Thaumetopoea pityocampa, Den. & Schiff) (Lepidoptera, Thaumetopoeidae) com um ciclo biológico distinto“, de Helena Santos.

Euphydryas aurinia
Euphydryas aurinia, uma espécie protegida presente no Pinhal do Rei.

Temos hoje o conhecimento necessário para dar o devido valor ao nosso património natural. As sucessivas iniciativas em prole da biodiversidade e as tentativas que têm vindo a ser realizadas por diversas instituições internacionais para travar o seu declínio, são a prova que devemos olhar para este património único como um bem inestimável a proteger. É de uma importância extrema, então, preservar de forma ativa as áreas chave desta floresta:

  • O Ribeiro de São Pedro de Moel e seus afluentes: as galerias ripícolas são corredores ecológicos de excelência. Apesar da paisagem que hoje ladeia as margens da Ribeira ser bastante artificializada, resultado de plantações efetuadas nos finais do século XIX, é um caso paradoxal de sucesso. É difícil encontrar outro local em que tantas espécies exóticas partilhem o espaço de forma tão harmoniosa. A par do que se faz noutras regiões do país, o acesso à estrada que margina a Ribeira poderia ser condicionado nas alturas de maior intensidade de tráfego automóvel. A cobrança de uma taxa de acesso simbólica seria suficiente para incentivar a opção por acessos alternativos (vejam-se os exemplos da Mata Nacional do Buçaco ou da Mata de Albergaria no Parque Nacional da Peneda-Gerês). Torna-se imperativo delimitar de forma clara os espaços para circulação e estacionamento por forma a impedir o pisoteio constante da flora que surge junto às mesas de piquenique. Os afluentes da Ribeira, por outro lado, mantém alguma vegetação nativa. Um trabalho de delimitação das suas margens, a plantação de mais vegetação autóctone, a erradicação de infestantes e a criação de percursos à sua margem, poderiam fazer destas ribeiras um espaço ímpar, quer para o usufruto do meio natural quer como espaços de educação ambiental.
  • A Lagoa da Saibreira: apesar de se tratar de um lago artificial, este é um dos poucos corpos de água presentes na Mata Nacional. Sabemos que, séculos atrás, antes da implantação do Pinhal, existiriam na região alguns pântanos ou charcos que terão sido assoreados para evitar a propagação das doenças transmitidas pelos mosquitos. É difícil, nos dias de hoje, calcular a perda de biodiversidade que resultou desta bem intencionada ação. A Lagoa da Saibreira poderá revelar-se, assim, como uma forma de recuperar alguns desses ecossistemas lênticos de um passado já esquecido. Efetivamente, é notório o potencial ambiental e turístico deste local: se devidamente recuperado com vegetação ribeirinha autóctone, com os acessos melhorados, com a implantação de um parque de merendas e placards informativos da fauna e flora locais, este poderá tornar-se um espaço de referência em todo o concelho. A propósito da recuperação deste local, consulte-se o projeto Charcos Com Vida.
Lagoa da Saibreira
Lagoa da Saibreira: um lago artificial de elevado potencial ecológico e turístico

O potencial turístico da nossa Mata Nacional é publicamente reconhecido. Falta, porém, que as entidades responsáveis pela gestão deste espaço o olhem para além da mera função produtiva. Haveria inúmeras ações concretas a realizar para incentivar o turismo de natureza na região. Destacam-se apenas as mais urgentes:

  • Recuperação das casas florestais ao abandono.
  • Erradicação de espécies exóticas infestantes, principalmente as acácias (Acacia sp.) e o bálsamo ou chorão-das-praias (Carpobrotus edulis (L.) N.E.Br.). Julgo que as ameaças referidas no Relatório Fundamentado da Avaliação da Execução do PDM da Marinha Grande (as processionárias e o nemátodo do pinheiro), são francamente menores que as provocadas por estas duas espécies. Na realidade as processionárias parecem ter atingido um estádio de equilíbrio e é raro verem-se árvores debilitadas pela ação desta espécie. Quanto ao nemátodo, creio não ter sido ainda detetado na região.
  • Delimitação de espaços para desportos motorizados. O pisoteio constante da vegetação por veículos todo-o-terreno no interior de alguns talhões, não só contribui para a instabilidade das dunas, suportes da biodiversidade, como descarateriza a paisagem natural do Pinhal de forma acentuada. A delimitação de espaços menos sensíveis do ponto de vista ambiental para a prática desta atividade permitiria, não só a manutenção do equilíbrio ambiental dos locais que se pretendem conservar, como facilitaria a fiscalização deste desporto.
Guarda Florestal do Rio Tinto ao abandono
Casa de Guarda Florestal do Seis: abandono e destruição

2.2. A faixa litoral

A pressão urbanística que se faz sentir em todo o país ao longo da costa tem sido amenizada, no nosso concelho, pela presença do Pinhal. Quando esta Mata foi plantada com o objetivo de impedir o avanço das areias em direção ao interior, não adivinhavam os nossos antepassados que estavam também a contribuir para impedir o avanço dos prédios em direção à praia. Uma vez que os talhões junto à costa não são explorados de forma comercial, sendo designados como Zona de Proteção e, considerando ainda que a área entre a Praia das Pedras Negras e a Praia da Vieira mantém bastante da sua biodiversidade intacta, seria plausível e muito meritório que ali fosse criada uma autêntica área protegida municipal com o formato de Parque Ecológico ou Parque Biológico (a título de exemplo, vejam-se os casos de sucesso do Parque Biológico de Gaia, do Parque Biológico da Serra da Lousã ou do Parque Ecológico do Funchal). A criação do Parque, a recuperação ambiental das praias (erradicação de acácias e chorões-das-praias), a instalação de um centro de interpretação ambiental e de percursos pedestres pela região teriam, certamente, um impacto significativo no turismo do concelho.

Espaço não explorado comercialmente: um Parque Ecológico em potencial?
Área não explorada comercialmente: um Parque Ecológico em potencial?

2.3. O Rio Lis

Embora o Lis chegue ao concelho da Marinha Grande nas condições que todos conhecemos, os poucos quilómetros que percorre em solo marinhense resultam numa paisagem única em todo o concelho. Do ponto de vista turístico, porém, o espaço está fracamente aproveitado. Aqui e ali surgem algumas estruturas clandestinas (barracas, mesas, fogareiros) que pouco contribuem para a beleza daquela paisagem. Do ponto de vista natural, e contra todas as expetativas, surgem alguns elementos faunísticos de grande interesse, entre os quais se destacam as aves. De acordo com o site avesdeportugal.info surgem neste local: corvo-marinho-de-faces-brancas, garça-branca-pequena, garça-real, borrelho-grande-de-coleira, borrelho-de-coleira-interrompida, tarambola-cinzenta, pilrito-das-praias, pilrito-comum, garajau-comum, guarda-rios, petinha-dos-prados, alvéola-cinzenta, alvéola-branca e gralha-preta. Por forma a aumentar o número de espécies, tornando o local apelativo para os observadores de aves (que tantas vezes se deslocam centenas de quilómetros para ver uma espécie em particular), faz todo o sentido uma intervenção profunda nas margens do rio. Os caminhos de terra batida que ladeiam o Lis têm sido utilizados indiscriminadamente por trânsito automóvel e, uma vez mais, por veículos todo-o-terreno. Para que as populações de aves se estabeleçam no local é importante que se restrinja este acesso de forma drástica, fomentando-se antes o ciclo-turismo e o pedestrianismo naquele local. A construção de torres de observação de aves, a instalação de binóculos fixos e de placards com a informação acerca das espécies observáveis, contribuiria para o reconhecimento desta zona a nível nacional. Finalmente, a recuperação das margens com a plantação de algumas árvores caraterísticas das galerias ripícolas, não só embelezaria o local como fomentaria o número de espécies presentes.

Pôr-do-Sol junto à margem do Lis
Pôr-do-Sol junto à margem do Lis

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