Embora, na minha opinião, o impacto ambiental do temporal do passado dia 19 de Janeiro seja bastante reduzido, em determinadas situações o seu impacto cultural não pode ser menosprezado.

As árvores tombadas e os serviços de ecossistema

Efetivamente, os serviços de ecossistema prestados pelas árvores caídas continuarão a ser-nos prestados pelos seus rebentos que têm agora possibilidade de vingar. Na verdade, estas jovens árvores desempenharão o seu papel de forma mais eficiente que as suas progenitoras: as árvores gigantes funcionam como enormes depósitos de carbono mas, consoante vão atingindo o seu porte máximo, tornam-se sorvedouros medíocres deste elemento. Um evento desta natureza faz parte do ciclo de renovação natural das nossas florestas – não tem nada de dramático!

Os serviços de ecossistema são geralmente divididos em 4 categorias: serviços de produção, serviços de regulação, serviços culturais e serviços de suporte. De entre todas estas categorias, os serviços culturais são aqueles que foram afetados de forma mais dramática e irremediável. Esta será, porventura, a categoria mais intangível e de difícil mensuração: tratam-se dos benefícios não materiais que obtemos dos ecossistemas (benefícios espirituais, recreativos, estéticos, educativos, simbólicos, inspiracionais, etc). É o caso das árvores ou animais sagrados para algumas religiões, os percursos e caminhadas em ambientes naturais, as paisagens deslumbrantes que servem de inspiração a pintores e poetas, os recursos educativos que a natureza nos oferece, e muito, muito mais.

Com o temporal de 19 de janeiro, muitas paisagens sofreram uma devastação que acaba por afetar, de forma drástica, a estética de alguns locais. Algumas das árvores caídas estavam classificadas como árvores notáveis, legalmente protegidas e que, de certa forma, faziam parte do património histórico e cultural do nosso país.

O pinheiro-bravo gigante do Pinhal do Rei

Uma destas árvores, um pinheiro-bravo bicentenário, encontrava-se no talhão 273 do Pinhal do Rei (Mata Nacional de Leiria), a uns escassos 3 km do centro da Marinha Grande. Classificado como árvore notável pelo Diário da República  n.º 32, Série II de 7 de Fevereiro de 1997, este era o pinheiro-bravo com maior perímetro de tronco da Península Ibérica.

Pinheiro-bravo
Pinheiro-bravo gigante, em Junho de 2010

Apesar da sua grandiosidade, porém, este gigante era um perfeito desconhecido para a generalidade da nossa população. Esta árvore representava muito mais que o sucesso da natureza: era um verdadeiro monumento natural aos mestres florestais que, ao longo dos séculos, geriram e zelaram esta floresta.

Pinheiro notável
O gigante, em Junho de 2010

Também ele tombou e, desta vez, não podemos culpabilizar ninguém pois este foi um acontecimento sem intervenção humana. Não posso deixar de me interrogar, porém, que destino terá agora esta árvore. A madeira do Pinhal do Rei é habitualmente vendida a preços bastante elevados (entre o ano 2000 e o ano 2010 a Mata Nacional de Leiria deu um lucro médio anual superior a 1,5 milhões de euros) mas, merecerá este monumento ser reduzido a tábuas e lenha?

o gigante caído
O pinheiro gigante tombado, em Janeiro de 2013

O Museu Nacional da Floresta, a ser instalado na Marinha Grande, parece ser um daqueles projetos que se arrasta ad eternum e nunca passa das intenções. Mais que nunca, é urgente! Acima dos interesses económicos e da crise, está a obrigação de preservar aquilo que temos de único e insubstituível. De pé ou deitada, esta árvore é ímpar e temos o dever de a preservar.

árvore monumental
Mesmo no chão: é uma árvore notável

This Post Has 2 Comments

  1. Incrível, aqui no Brasil não são as tempestades que derrubam árvores como essas, são homens inescrupulosos e gananciosos.

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