Para mim este talhão tem um significado especial. Na primeira década do século XX, o meu bisavô Francisco ocupou a casa da guarda florestal da Mioteira, situada no aceiro entre os talhões 53 e 74. Apesar da habitação ter sido demolida há alguns anos, ainda subsistem vestígios da ocupação do local, alguns dos quais, não duvido, são obra deste meu antepassado. Originário dos coutos de Alcobaça, certamente por lá terá aprendido as famosas técnicas de fruticultura da região cisterciense, aplicando-as na Mioteira. De imediato, saltam à vista os grandes sobreiros que ladeiam a estrada. Aqui e ali, algumas figueiras, parreiras e até enormes amoreiras dão uma cor particular ao local. Na monotonia arbórea que carateriza esta floresta, a Mioteira revela-se, assim, como um minúsculo oásis de diversidade.

Francisco Franquinho, guarda florestal da Mioteira
Uma alameda de sobreiros.

Não é este, porém, o único ponto de interesse deste talhão.

O arrife 4, que divide os talhões 52 e 53, é atravessado pelas linhas elétricas que abastecem a Vieira de Leiria, pelo que a sua largura é muito superior aos restantes. Daqui resulta um espaço aberto bastante mais amplo do que é habitual encontrar nesta mata. Esta área soalheira revela-se o habitat ideal para a proliferação de algumas flores, com destaque para o rosmaninho (Lavandula stoechas L.). E, em cada uma destas plantas, lá estava uma borboleta, com um claro domínio das Hipparchia semele (Linnaeus, 1758) que surgiram às dezenas.

Hipparchia semele no rosmaninho

A surpresa da tarde, porém, estava destinada a outro grupo de insetos: as libélulas.

Nos nossos dias, à exceção da Ribeira de Moel e dos seus pequenos afluentes, a área do Pinhal do Rei carateriza-se pela sua aridez quase total. Neste talhão, no entanto, surge um pequeno corpo de água artificial, a Lagoa da Saibreira. Trata-se de uma antiga exploração de saibro (areia argilosa), agora abandonada e que, com as chuvas de inverno, costuma acumular alguma água. (Sobre a Lagoa, ver este post de JM Gonçalves).

Lagoa da Saibreira

Ora, durante o seu ciclo de vida, as libélulas passam por uma (longa) fase aquática no estado de ninfa. É possível, por isso, encontrar os adultos nas imediações de corpos de água, os seus locais de eleição para a reprodução e postura. Talvez por não terem muitas opções nesta região, a diversidade que surge em redor desta lagoa é impressionante.

Um macho de Enallagma cyathigerum.
Fêmea de Enallagma cyathigerum.
Ischnura graellsii
Fêmea de Diplacodes lefebvrii.
Anax imperator
Fêmea de Orthetrum cancellatum.
Macho de Trithemis annulata.

Com esta variedade e quantidade de libélulas, é possível observar também os vestígios que deixam aqui e ali. Após a fase aquática, as ninfas deixam a água e largam também o seu antigo exoesqueleto, agora ultrapassado. Na Saibreira, em cada ramo projetado da água, uma destas exuvias dá um ar fantasmagórico ao local.

Exuvia
Exuvia

Um agradecimento especial ao Albano Soares, ao Nelson Fonseca e ao Aires Pires pela preciosa ajuda na identificação destes odonatos. :)

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