Há já algum tempo que tinha vontade de fazer uma ronda por um dos talhões junto à costa. O facto de se tratar de um ecossistema substancialmente diferente do que encontramos habitualmente no Pinhal do Rei, levava-me a crer que poderia funcionar como habitat para algumas espécies de requisitos ecológicos mais invulgares. Reconheço, porém, que o entusiasmo era acompanhado por algum receio uma vez que a nossa faixa litoral está tão humanizada, artificializada e maltratada que não sei até que ponto as espécies autóctones terão capacidade para ir sobrevivendo. Que biodiversidade dunar iria eu encontrar?

Vejamos: quando, há oito séculos, D. Afonso III lançou as sementes para o que se viria a tornar o Pinhal de Leiria, iniciou também a devastação quase integral da nossa primitiva e selvagem floresta indígena, numa ação apenas comparável, nos nossos dias, à eucaliptização desenfreada que de lés a lés, percorre o país. Até 1841, porém, uma faixa de aproximadamente 3 km a partir da costa, estava ainda por arborizar pois as areias sopradas pelo vento constante soterravam as plantações e impediam o crescimento das árvores. Então, de forma muito engenhosa (mas ecologicamente questionável), decidiu-se construir uma duna primária artificial que protegesse as plantações a nascente.

1841 – construção da paliçada para segurança das dunas.

Se a todas estas intervenções passadas adicionarmos a atual pressão exercida sobre o nosso litoral (turismo excessivo, pisoteio constante, urbanização desenfreada, proliferação de espécies exóticas), compreenderão o meu receio. Por outro lado, aos poucos, tenho vindo a descobrir que a tal floresta primitiva não desapareceu, está apenas adormecida à sombra dos pinheiros e, a cada oportunidade, desperta…

Neste dia, a minha caminhada começou bem. O primeiro inseto que observei no espaço interdunar foi uma borboleta, a Pontia daplidice (Linnaeus, 1758). Apesar de já saber, por indicação do Ricardo Machado, que ela ocorreria, foi hoje a primeira vez que a vi no Pinhal do Rei. Infelizmente, a desgraçada estava poisada em cima de alguns restos de tijolos que abundam na zona, porventura provenientes das demolições efetuadas nos anos 80 do século passado e que hoje ali permanecem…

A vegetação que encontro, porém, não deixa margem para dúvidas: o local está de saúde! A cada passo, as lindíssimas assembleias (Iberis procumbens, Lange) surgem, ora na sua versão branca, ora na versão rosa. Aqui e ali, algumas armerias ainda mostram a sua cor e os cardos roladores (Eryngium maritimum, Linnaeus) estão também em plena época de floração.

Assembleias: Iberis procumbens, Lange
Armeria sp.
Cardo rolador: Eryngium maritimum, Linnaeus

Chegando ao topo da duna primária, sou surpreendido pelo rápido esvoaçar de um papilionídeo, e depois outro, e outro ainda. Trata-se da borboleta cauda-de-andorinha (Papilio machaon, Linnaeus, 1758) que por ali praticava hill topping, um curioso comportamento desta e doutras espécies de lepidópteros que consiste em percorrer o topo das maiores elevações de determinada área, em busca de parceiro sexual.

Borboleta cauda-de-andorinha: Papilio machaon, Linnaeus, 1758
Borboleta cauda-de-andorinha: Papilio machaon, Linnaeus, 1758

Bem mais discreta, uma pequena Polyommatus icarus (Rottemburg, 1775) desperta a atenção da máquina fotográfica para logo ser substituída por uns estranhos seres: um grupo de lagartas alimentando-se de narciso-das-areias (Pancratium maritimum, Linnaeus). Tratam-se de larvas de Brithys crini, Fabricius, 1775, uma pequena borboleta noturna da família Noctuidae.

Polyommatus icarus (Rottemburg, 1775)
Larva de Brithys crini, Fabricius, 1775

Antes de me afastar da duna primária, uma Utetheisa pulchella (Linnaeus, 1758) faz uma fugaz aparição. Este é um belíssimo lepidóptero que, apesar de classificado numa família noturna (Erebidae), costuma voar durante o dia.

Utetheisa pulchella (Linnaeus, 1758)

Já na descida de regresso ao espaço interdunar, um minúsculo gafanhoto marca a sua presença com dois ou três saltos. Não fosse isso e nunca o teria visto, tal é a perfeição da sua camuflagem.

Pequeno gafanhoto

Agora na duna secundária, abundam as giestas, as camarinheiras (Corema album, Linnaeus), o arroz-dos-telhados (Sedum sediforme, [Jacquin] Pau) e alguns pinheiros deformados pelo vento.

Arroz dos telhados: Sedum sediforme, (Jacquin) Pau

É neste meio que um esvoaçar rápido e nervoso me chama a atenção. Depois de uma perseguição que por pouco resultaria em nada, consegui aproximar-me o suficiente para identificar mais um pequeno licenídeo, adicionando-o à lista de espécies que habitam o nosso Pinhal, a Lampides boeticus (Linnaeus, 1767). Uns passos adiante, ainda um outro, uma Aricia cramera Eschscholtz, 1821, bastante mais sossegada que a sua prima. Logo depois, mais uma Lycaena phlaeas (Linnaeus, 1761), espécie que parece estar dispersa por inúmeros talhões em quantidades bastante moderadas.

Lampides boeticus (Linnaeus, 1767)
Aricia cramera, Eschscholtz, 1821

Apesar de todos os impactos que esta paisagem tem vindo a sofrer ao longo dos tempos, preciso aqui reconhecer o esforço que tem sido feito nos últimos anos e cujos resultados são bem visíveis na recuperação da vegetação dunar, nomeadamente a construção de passadiços de madeira para evitar o pisoteio das plantas e a construção e delimitação de espaços de estacionamento e circulação automóvel.

Embora neste talhão em particular as espécies exóticas não estejam descontroladas ao ponto de constituir uma ameaça séria ao ecossistema dunar, o mesmo não se passa noutras zonas da nossa costa. Exercer ações concretas de erradicação do chorão-das-praias (Carpobrotus edulis (L.) N.E. Br, 1926) e das várias espécies de acácias, replantando as áreas com vegetação nativa, são medidas necessárias e cujo adiamento apenas dificultará a sua concretização…

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