Nesta 9ª edição das Noites Europeias das Borboletas Noturnas, optei por organizar algumas sessões de observação aqui na zona. Os motivos para esta decisão foram variados mas, na verdade, julgo que se conhece muito pouco acerca dos heteróceros da região e qualquer contributo para o seu estudo será sempre muito bem-vindo.

Em todas as sessões foi utilizada uma lâmpada de vapor de mercúrio de 125W com um sistema de armadilhagem horizontal.

Noite 1 – Casal Novo, Amor

Esta noite funcionou, essencialmente, como ensaio geral para o equipamento, aqui utilizado pela primeira vez. Tratando-se de uma zona habitacional, com pequenas áreas agrícolas, muitas casas e bastantes eucaliptos, a expetativa não era muito elevada. Apesar de tudo, apareceram cerca de 13 espécies distintas durante as 3 horas desta sessão.

Drepanidae:

  • Watsonalla uncinula (Borkhausen, 1790)

Geometridae:

  • Chloroclystis v-ata (Haworth, 1809)
  • Hemithea aestivaria (Hübner, 1789)
  • Idaea biselata (Hufnagel, 1767)
  • Idaea degeneraria (Hübner, 1799)
  • Idaea ochrata  (Scopoli, 1763)

Thaumetopoeidae:

  • Thaumetopoea pityocampa (Treitschke, 1834)

Noctuidae:

  • Autographa gamma (Linnaeus, 1758)
  • Oligia strigilis (Linnaeus, 1758)
  • Pechipogo plumigeralis Hübner, 1825

Nolidae:

  • Meganola albula (Denis & Schiffermüller, 1775)

Erebidae:

  • Coscinia cribraria (Linnaeus, 1758)
  • Phragmatobia fuliginosa (Linnaeus, 1758)

 

Phragmatobia fuliginosa, uma colorida espécie da qual apareceram 2 indivíduos.
A Coscinia cribraria, curiosamente, apareceu na forma pontinhada, típica do norte do país.
A processionária foi uma das espécies omnipresentes ao longo destas noites.

 

Noite 2 – Vale da Felicia, Pinhal do Rei

O vale da Ribeira de São Pedro parece constituir um paradoxo em termos de conservação ambiental. Este corredor ripícola encontra-se arborizado com uma profusão de espécies de folhosas, maioritariamente introduzidas artificialmente há cerca de um século. Choupos, carvalhos, salgueiros e amieiros, partilham o espaço com acácias e eucaliptos de grande porte de uma forma desconcertantemente harmoniosa. Esta densa cobertura florestal deverá ter afetado as condições de humidade e de exposição solar do local, favorecendo as espécies adaptadas a climas mais húmidos e frios e marginalizando as espécies mais xerotermófilas.

Durante as 5 horas desta sessão, surgiram cerca de 20 espécies distintas, com um claro destaque para a processionária, Thaumetopoea pityocampa (Treitschke, 1834), da qual surgiram 200 a 300 indivíduos.

Limacodidae:

  • Hoyosia codeti (Oberthür, 1883)

Geometridae:

  • Campaea honoraria (Denis & Schiffermüller, 1775)
  • Campaea margaritata (Linnaeus, 1761)
  • Comibaena bajularia (Denis & Schiffermüller, 1775)
  • Hemithea aestivaria (Hübner, 1789)
  • Idaea eugeniata (Dardoin & Milliere, 1870)
  • Idaea ostrinaria (Hübner, 1813)
  • Pachycnemia hippocastanaria (Hübner, 1799)
  • Peribatodes rhomboidaria (Denis & Schiffermüller, 1775)
  • Pseudoterpna coronillaria (Hübner, 1817)
  • Tephronia llhomaria (Oberthür, 1881)

Thaumetopoeidae:

  • Thaumetopoea pityocampa (Treitschke, 1834)

Notodontidae:

  • Phalera bucephala (Linnaeus, 1758)

Lymantriidae:

  • Calliteara pudibunda (Linnaeus, 1758)
  • Lymantria monacha (Linnaeus, 1758)

Nolidae:

  • Pseudoips prasinana (Linnaeus, 1758)

Erebidae:

  • Coscinia cribraria (Linnaeus, 1758)
  • Eilema sororcula (Hufnagel, 1766)
  • Lithosia quadra (Linnaeus, 1758)
  • Spilosoma lutea (Hufnagel, 1766)
Perto de uma dezena de Spsilosoma lutea coloriram esta noite.
Uma belíssima Lymantria monacha, foi uma das sensações desta sessão.
Uma Bena bicolorana com a sua curiosa camuflagem.

 

Noite 3 – Ribeira do Brejo d’Água / Ribeira da Lagoa das Éguas, Pinhal do Rei

A Ribeira do Brejo d’Água e a Ribeira da Lagoa das Éguas são pequenos afluentes da Ribeira de São Pedro. As suas margens mantém alguma vegetação autóctone embora os pinheiros e, aos poucos, as acácias, dominem a paisagem. Nesta terceira noite, o equipamento foi instalado a meio do percurso entre o leito (atualmente seco) destas duas ribeiras. Aqui surgiram algumas das maiores surpresas deste evento, nomeadamente dois grandes esfíngideos: a Laothe populi (Linnaeus, 1758) e Sphinx ligustri Linnaeus, 1758. Foi também o local com o maior número de espécies contabilizadas – cerca de 30.

Erebidae:

  • Coscinia cribraria (Linnaeus, 1758)
  • Dysgonia algira (Linnaeus, 1767)
  • Eilema caniola (Hübner, 1808)
  • Eilema depressa (Esper, 1787)
  • Eilema sororcula (Hufnagel, 1766)
  • Lithosia quadra (Linnaeus, 1758)
  • Spilosoma lutea (Hufnagel, 1766)

Geometridae:

  • Comibaena bajularia (Denis & Schiffermüller, 1775)
  • Hemithea aestivaria (Hübner, 1789)
  • Idaea aversata (Linnaeus, 1758)
  • Idaea bigladiata Herbulot, 1975
  • Idaea calunetaria (Staudinger, 1859)
  • Idaea lutulentaria (Staudinger, 1892)
  • Idaea ochrata (Scopoli, 1763)
  • Idaea ostrinaria (Hübner, 1813)
  • Nychiodes andalusiaria Staudinger, 1892
  • Pachycnemia hippocastanaria (Hübner, 1799)
  • Peribatodes rhomboidaria (Denis & Schiffermüller, 1775)
  • Pseudoterpna coronillaria (Hübner, 1817)

Limacodidae:

  • Hoyosia codeti (Oberthür, 1883)

Lymantriidae:

  • Euproctis similis (Fuessly, 1775)

Noctuidae:

  • Anapoma riparia (Rambur, 1829)
  • Athetis hospes (Freyer, 1831)
  • Lycophotia erythrina (Herrich-Schäffer, 1852)
  • Mythimna sicula (Treitschke, 1835)
  • Thysanoplusia orichalcea (Fabricius, 1775)

Nolidae:

  • Bena bicolorana (Fuessly, 1775)

Notodontidae:

  • Phalera bucephala (Linnaeus, 1758)

Sphingidae:

  • Laothoe populi (Linnaeus, 1758)
  • Sphinx ligustri Linnaeus, 1758

Thaumetopoeidae:

  • Thaumetopoea pityocampa (Treitschke, 1834)
Sphinx ligustri, o primeiro gigante da noite.
Laothoe populi, espécie representada nesta noite por dois indivíduos.
Alguns indivíduos desta espécie, a Phalera bucephala fizeram sensação.

Noite 5 – Ribeira do Rio Tinto

Infelizmente, a chuva impediu a nossa participação na 4ª noite do evento. A 5ª e última noite realizou-se na margem da Ribeira do Rio Tinto, junto àquele que é considerado o pinheiro de maior diâmetro da Península Ibérica (classificado como árvore de interesse público pelo D.R. nº 32 II Série de 07/02/1997). O local possui outros exemplares de grande porte, algumas árvores menores (principalmente Quercus sp.) e uma vegetação rípicola num razoável estado de conservação. Esta noite, durante uma sessão de três horas, surgiram cerca de 22 espécies, algumas das quais não apareceram nas noites anteriores.

Lasiocampidae:

  • Phyllodesma kermesifolia (de Lajonquiere, 1960)

Drepanidae:

  • Drepana curvatula (Borkhausen, 1790)

Geometridae:

  • Pachycnemia hippocastanaria (Hübner, 1799)
  • Menophra abruptaria (Thunberg, 1792)
  • Peribatodes rhomboidaria (Denis & Schiffermüller, 1775)
  • Pseudoterpna coronillaria (Hübner, 1817)
  • Hemithea aestivaria (Hübner, 1789)
  • Idaea ostrinaria (Hübner, 1813)
  • Idaea aversata (Linnaeus, 1758)

Thaumetopoeidae:

  • Thaumetopoea pityocampa (Treitschke, 1834)

Noctuidae:

  • Pechipogo plumigeralis Hübner, 1825
  • Elaphria venustula (Hübner, 1790)
  • Callopistria juventina (Stoll, 1782)
  • Ochropleura plecta (Linnaeus, 1761)
  • Lycophotia erythrina (Herrich-Schäffer, 1852)
  • Agrotis segetum (Denis & Schiffermüller, 1775)

Lymantriidae:

  • Orgyia antiqua (Linnaeus, 1758)

Nolidae:

  • Meganola albula (Denis & Schiffermüller, 1775)

Erebidae:

  • Eilema depressa (Esper, 1787)
  • Eilema caniola (Hübner, 1808)
  • Eilema sororcula (Hufnagel, 1766)
  • Spilosoma lutea (Hufnagel, 1766)
A invulgar Phyllodesma kermesifolia.
A belíssima Callopistria juventina.
A curiosa Drepana curvatula.

 

Em jeito de conclusão…

Uma vez que foi este o primeiro evento que organizei com abertura ao público, preciso confessar algum receio. Nem sempre estes eventos de carácter mais científico têm uma grande adesão pública e, por outro lado, organizar estas sessões numa região tão pouco habituada a iniciativas deste género, poderia facilmente resultar em fracasso. Para minha surpresa, tal não se verificou. Com um público constante, interessado e motivado ao longo das diferentes noites, ficou a clara sensação de que este foi só o primeiro passo de uma longa caminhada na descoberta e divulgação da lepidopterofauna o Pinhal do Rei.

Relativamente às observações em si, apenas poderiam dar resultados positivos: desconheço quaisquer estudos anteriores nesta região e, por mais banal que sejam as espécies encontradas, serão sempre uma novidade!

Terá que se destacar o elevado número de processionárias (T. pityocampa) observadas, situação que não se pode estranhar uma vez que, afinal, estamos na maior mancha de pinheiro bravo do país.

A presença de Sphinx ligustri nesta região estende a área de ocorrência desta espécie em aproximadamente 80 km para sul. Anteriormente o seu limite de distribuição conhecido situava-se na zona do Buçaco (informação de Tatiana Moreira).

Finalmente, a possibilidade de nos termos deparado com uma nova espécie para o país, justifica plenamente as noites mal dormidas. :)

Eilema sp.

Resta-me agradecer a todos os participantes pela companhia e entusiasmo que trouxeram consigo: Alexandrina, Armando, Ascensão e sua irmã, Carla, Fernanda, Francisco, Ivone, JM, Ricardo, Rómulo. Obrigado.

Ainda um agradecimento especial ao Eduardo Marabuto pela identificação da generalidade das espécies. :)

This Post Has One Comment

  1. Na região de castelo Branco, que espécie noturna podemos avistar!? Ontem entrou uma para dentro da minha casa…conclusão, janelas abertas, luzes apagadas e de manhã já lá não estava!
    Obrigada

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