A tarde deste último dia do mês de maio trouxe consigo uma subida acentuada da temperatura. De um dia para o outro, passámos da escala dos “vintes” para os “trintas” graus Celsius. Talvez fosse o impulso necessário para que a primavera despontasse, finalmente, em todo o seu esplendor.

O talhão que escolhi visitar esta tarde, fica a pouco mais de um quilómetro da Marinha Grande. É, também, atravessado pela estrada que liga a cidade a São Pedro de Moel. Em seu beneficio, porém, é percorrido pela Ribeira do Rio Tinto, que lhe quebra um pouco da monotonia que, tantas vezes, carateriza esta mata.

Ainda durante o caminho até ao ponto de partida para esta volta, a tarde mostrava alguns indícios animadores: “ali vai uma Colias croceus, e ali esvoaçam duas Pararge aegeria”. Entretanto, uma águia enorme atravessa o meu caminho deixando-me boquiaberto com a inesperada visão. Prometia.

Aos primeiros passos percebi, animado, que a tarde seria substancialmente diferente dos dias anteriores. Um pouco por todo o lado, esvoaçavam largas dezenas de pequeno licenídeos. Um olhar mais atento revelou tratarem-se de Leptotes pirithous (Linnaeus 1767), uma espécie comum e largamente distribuída por todo o país. Este ano, foi a primeira vez que os vi, embora, por norma, seja possível observar a espécie a partir de fevereiro.

Leptotes pirithous

Ali por perto, alguns indivíduos da minúscula Tebenna micalis (Mann, 1857), borboleta da família Choreutidae, com pouco mais de um centímetro de envergadura, repousavam em flores de Cistus. Nesta mesma planta, algumas lagartas de Euproctis chrysorrhoea (Linnaeus, 1758) iam-se alimentando pachorrentamente. Trata-se de uma novidade curiosa pois esta não é uma fonte de alimento típica para esta espécie e os medronheiros (Arbutus unedo, Linnaeus), uma das suas refeições preferidas, abundam por toda esta região.

Tebenna micalis
Lagarta de Euproctis chrysorrhoea

Aqui e ali, algumas flores estão ocupadas por pequenas aranhas aguardando a chegada de insetos que, azarados, na ânsia de se lambuzarem com o doce pólen, acabam comidos.

Oxyopes lineatus a predar um pequeno díptero

Chegando agora a uma zona mais sombria, os licenídeos começam a rarear e outras espécies de lepidópteros começam a dar sinal de si. Surgem algumas Pyronia bathseba Fabricius, 1793 e, outra novidade para este ano, a Maniola jurtina (Linnaeus, 1758) faz a sua primeira aparição. Trata-se de uma das nossas borboletas mais comuns, geralmente visível entre março e outubro mas, como tantas outras espécies, chegando algo atrasada este ano.

Maniola jurtina

Continuando o percurso no sentido norte-sul ao longo do arrife 9, chega o momento de atravessar a estrada de S. Pedro. Entretanto, ali por perto esvoaçava uma solitária Lycaena phlaeas (Linnaeus, 1761). Uma vez do outro lado da estrada, as coisas complicam-se inesperadamente. O arrife está tão mal tratado que é difícil perceber onde continuar o caminho. Depois da confusão inicial e de alguns metros percorridos em mato denso, consegui, finalmente, descobrir onde continuar o percurso e, logo depois, outra novidade para este dia: em redor de uma abrótea (Asphodelus sp.) esvoaçava uma belíssima Celastrina argiolus (Linnaeus, 1758).

Celastrina argiolus

Uma vez chegado ao vale da Ribeira do Rio Tinto, porém, o percurso é interrompido drasticamente e o arrife desaparece totalmente entre vegetação demasiado densa para prosseguir – o que até estaria muito bem se essa vegetação não fosse inteiramente constituída por acácias. Sigo, então, algo desanimado, agora no sentido este-oeste. Poucos metros adiante, uma pequena área soalheira com inúmeras abróteas trás de volta os licenídeos. Desta vez, porém, as C. argiolus rivalizam em quantidade com as L. pirithous e, isolada entre as restantes, destaca-se uma fêmea de Polyommatus icarus (Rottemburg, 1775).

Polyommatus icarus, fêmea
Polyommatus icarus, fêmea

Já ao chegar ao arrife 10, surge uma pequena zona que quase parece ter sido plantada com rosmaninho (Lavandula stoechas Linnaeus). Largas dezenas de L. pirithous esvoaçam em redor das flores aproveitando os últimos raios de sol da tarde. Alguns dípteros e himenópteros com cara de poucos amigos fazem o mesmo, enchendo o ar com os seus zumbidos constantes. Num carrasco ali ao lado, uma solitária lagarta de Psilogaster loti (Ochsenheimer, 1810), mais uma na planta errada!, entretém-se a mastigar a sua refeição.

Lagarta de Psilogaster loti
Uma abelha no rosmaninho

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