“O Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria” é uma interessante obra de um autor anónimo do século XVII. A sua antiguidade, aliada aos curiosos relatos das diversas paróquias do distrito, fazem dele um livro de consulta obrigatória a todos os interessados pela história da região centro do país. Uma edição posterior, de 1868, veio adicionar novos e interessantes dados a esta obra, mantendo intacto o texto original.

A transcrição que se segue, diz respeito à paróquia da Marinha Grande.

Da freguezia da Marinha

No anno de 1590 fizeram os moradores da Marinha e Gracia petição ao mesmo bispo D. Pedro, dizendo que tinham feito uma ermida, da invocação de N. Senhora do Rozario, no logar da Marinha, e pediam licença para n’ella se dizer missa, e lh’a concedeu para que os moradores, impedidos, fossem a ella, com licença do cura; consta do livro 2º do registo a fl. 167. No anno de 1600 a erigiu em freguezia, debaixo da mesma invocação do Rozario, desmembrando-os da freguezia de S. Thiago, do Arrabalde da Ponte, d’nde eram freguezes; a apresentação do cura ficou ao prelado; a fabrica da egreja, capella, sacristia e casas do cura á obrigação dos freguezes; ao cura taxaram setenta alqueires de trigo e dez de segunda, e um quartão de vinho, cada um; de presente dão pelo vinho 30 reis, e tem o contracto e clausula que sendo os freguezes mais de oitenta, lhe accrescentariam o salario. O prelado dá ao cura sómente 3$000 reis, em dinheiro; tudo consta do contracto, que está no cartorio da dicta egreja, feito entre o prelado e moradores dos dictos logares; e para a obra da egreja mandou o bispo dar 20$000 reis, das rendas da fabrica; consta do livro das contas d’aquelle tempo, da fabrica, que está no seu cartorio.

Tem o cura as ofertas do parochial, sómente, algumas amentas, voluntarias, de meio alqueire de milho cada uma. Tem a parochia duzentos fogos, pouco mais ou menos. O altar mór tem nicho de pedra, dourado, e n’elle a imagem da Senhora, de vulto; tem mais dous collateraes, com nichos dourados, N. Senhora da Encarnação, S. Sebastião e S. Francisco, de vulto; tem sacristia, capella de pia de baptisar, fechada, e um sino, pequeno. N’esta freguezia cáe parte do pinhal d’el rei, que começa na Lagoa Sapinha, que está á borda do Aceiro, e chega até á Vieira e freguezia de Cravide, e são tres legoas, grandes. de comprido, e de largo chega até o mar, que será legua e meia, pouco mais ou menos; há n’ella muita caça, tem muitas valeiras, grandes, e altos matos; há pinhal, muito denso, com alguns ribeiros, dos quaes é um que se chama de Muel, que sáe da dicta Lagoa Sapinha, e se vae metter no mar, aonde chamam o Cabo, que é meia legua de S. Pedro de Muel, contra a foz.

Por este sitio da Marinha se poz fogo ao pinhal, no ano de 1645, que fez muita perda; tiraram tres devassas, o provedor uma, o juiz de fóra outra, e outra o guarda-mór, de que resultou pouco mais de nada; e já sendo bispo D. Martim Affonso Mexia e guarda mór Jorge da Silva da Costa, se poz fogo no mesmo pinhal, que se ateou muito e fez grandissima perda; veio um desembargador devassar, porém como se dizia que os mesmos bispo e guarda mór o pozeram, tudo parou em bem.

Ermidas. = Ha n’esta freguezia a ermida de S. Pedro de Muel, de que fica tractado no capitulo 91 [ver abaixo]. Outra no logar da Gracia, da invocação de Santa Barbara, feita pelos moradores do dicto logar, e se lhes deu licença para n’ella se dizer missa no anno de 1635, pelo bispo D. Diniz de Mello; consta do livro 3º do registo a fl. 74. Os moradores do mesmo logar são obrigados á fabrica d’ella.

 

Da Egreja de S. Pedro de Muel

Havia tambem a egreja de S. Pedro de Muel, antiga, que ora está no districto da freguezia da Marinha; estava no mesmo sitio, com a porta para o mar e seu alpendre, e se descia por uns degraus á capella, que estava aonde agora é a porta, e está aonde ora é a capella, e para ali ficava o alpendre; esta ermida se reformou, com esmolas dos devotos, e outras vezes com esmolas do cabido e das despezas. A capella é d’abobada, com muitos frisos e arco de pedraria; a imagem do Santo é de vulto, e tem um só altar. Devotos lhe faziam festa, no mez d’agosto, assim d’esta cidade, como d’Alcobaça; e n’esse dia, e no primeiro d’agosto, que é o da festa das Cadeias, ha concurso de gente; e foi este sitio muito frequentado, assim por ser o mar tão perto, como por ter logares accomodados para pescaria, por uma parte e outra, e muita caça no Camarção, e o fazer muito fresco um ribeiro d’agua dôce, que não longe do sitio nasce; no qual houve dous moinhos de pão, e muito boas hortas, e por esta razão, os marquezes de Villa Real tinham n’elle umas casas, para quando lá iam, e n’ellas se recolhiam as pessoas que d’esta cidade, e doutras partes, faziam romaria, as quaes, com o ruim tracto, cairam de todo.

 

Adenda da edição de 1868:

Egreja Paroquial – A primitiva capella de N. Senhora do Rozario, depois de erecta freguezia, ficou sendo a egreja parochial; em vista, porém, do sensível augmento da população, os freguezes cerca do anno de 1804, a demoliram e em seguida, aproveitando a área e alguns materiaes da antiga, edificaram a actual egreja, que ampla como é ainda não dá suficiente espaço a todo o povo que a ella concorre nos dias santificados. Tem cinco altares – o mór, dedicado ao orago da egreja – dois collateraes do lado do evangelho, dedicados, o primeiro ao SS. Sacramento e o segundo a N. Senhora das Dôres – e dous do lado da epistola, sendo primeiro dedicado a N. Senhora da Conceição e o segundo a S. Sebastião; estes dois ultimos são fornecidos de cêra por familias particulares. – tem também uma bem construida torre com quatro sinos e relogio, colocado em abril d’este ano de 1868.

Esta freguezia compõe-se de 830 fógos; dá de congrua ao parocho 150$000 reis e ao coadjutor 40$000 reis. – A população d’esta freguezia progride consideravelmente todos os annos; o que sem duvida é devido, em grande parte, á affluencia de muitas pessoas e familias inteiras, que não sómente de diversas terras do paiz, mas mesmo do estrangeiro, aqui vem estabelecer-se, para exercerem suas industrias em alguma fabrica, ou para gozarem das vantagens que o pinhal lhes oferece.

Capellas.

A de S. Pedro de Moel. – D’esta ermida só existem as ruinas da capella mór, sobre uma rocha, e parte do altar, que era de pedra e cal. O corpo da ermida foi absorvido pelas ondas do Oceano. No mesmo sitio, mais para a terra, está outra capella de fundação posterior que substituiu a primeira e que é da mesma invocação, onde estão as imagens, de vulto, de S. Pedro Apostolo e de N. Senhora da Piedade.

A do Senhor Jesus dos Afflictos – Esta capella foi fundada em 1861, juncto do logar da Marinha Grande, ao lado do sul, contigua com o cemitério, que fôra bento no anno de 1857; esta capella foi benta a 9 d’abril de 1865, pelo revdº missionario Luiz Prosperi, italiano, que aqui então se achava em missão; e no mesmo dia se celebrou n’ella missa pela vez primeira.

Em 1866, se instituiu n’esta capella uma irmandade intitulada = do Senhor Jesus dos Afflictos – composta já de 228 irmãos, que voluntariamente se encarregou da fabrica da mesma. Em 2 de fevereiro do mesmo anno de 1866, se colocou alli solemnemente a veneravel imagem do mesmo Senhor, e no mesmo dia se lhe fez a primeira festa.

A capella do Engenho – Sabe-se que existiu até á invasão francesa, e que então fôra queimada; ignora-se, porém, qual fosse o orago; era fabricada pela administração dos pinhaes de Leiria, que tinha um capellão, pago á sua custa; e depois da invasão ficou essa capellania sendo na egreja parochial alguns annos, até que se extinguiu.

O coadjutor d’esta freguezia,

António dos Santos

 

Ainda na edição de 1868, espaço para uma devastadora estatística a propósito das invasões francesas:

Estado da população no principio d’outubro de 1810, antes da invasão:

Marinha Grande: 1042 homens, 1079 mulheres, 511 fogos

Estado da população no fim de junho, depois da retirada dos inimigos:

Marinha Grande: 509 homens, 559 mulheres, 445 fogos, 48 pessoas mortas pelos francezes immediatamente, 1005 pessoas mortas de doenças, 112 pessoas ausentes da freguezia mas contadas nas duas casas d’homens e mulheres

 

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