[O texto que se segue foi publicado no volume II do livro “Guia de Portugal”, de Sant’anna Dionísio, edição de 1927.]

Marinha Grande [por João de Magalhães Júnior], vila de 7035 habitantes, sede de concelho, 1500 metros da estação (camioneta aos comboios-correios) e na orla oriental do grande pinhal de Leiria.

  • Carros de aluguer: Emília da Silva Guarda, João da Costa, Manuel Gomes (todos próximos da estação).
  • Automóveis: Joaquim Domingues da Silva, Severino Gomes.
  • Hotel (modesto): Abreu.
  • Hospedaria: Albino Nobre da Silva, Manuel Ferreira Coimbra.
  • Telefone para S. Pedro de Moel.
  • Teatro de Guilherme Stephens.
  • Bilhetes postais ilustrados: António Abreu e Augusto Ferrão.
  • Águas canalizadas, razoáveis (excelente a da Embra).
  • Descanso semanal: 5ª feira.
  • Dia feriado: 26 de Março (data da inauguração do concelho).
  • Iluminação pública: petróleo (está para se fazer em breve a montagem de electricidade).
  • Escola Industrial, criada em 1924.
  • Sede da 3ª circunscrição florestal.

As casas da Marinha Grande são, na sua maioria, de aspecto modesto mas asseado, e as ruas bastante alegres. Como nota de antiguidade, apenas a gravidade das edificações pombalinas da Fábrica Nacional. Vila e arredores em planície, pelo que a atmosfera é larga, conquanto o horizonte remate invariavelmente em maciços de pinheiros, ficando a Oeste a cortina vetusta da mata do Estado.

Da Marinha Grande não se conhecem feitos de história antiga. A sua primeira capela foi edificada em fins do século XVI, sob a invocação de N.ª Sr.ª do Rosário. Em 1836 foi elevada a sede de concelho, logo extinto em 1838; em 1892 passou à categoria de vila e em 1917 foi restaurado o concelho, que ficou com as freguesias de Marinha Grande e Vieira de Leiria.

A vida da população subordina-se principalmente à indústria do vidro.

Real Fábrica do Vidro

Iniciou-se aqui esse fabrico em 1748, pela transferência duma pequena fábrica que, dirigida por John Beare, existia em Coina, perto do Barreiro, e que veio procurar ao pinhal de Leiria o abastecimento económico de combustível. Foi, porém, o inglês William Stephens quem, em 1769, lhe deu grande incremento, adquirindo a pequena fábrica já existente e transformando-a numa grande fábrica, que dotou com os mais perfeitos métodos desse tempo, para a prática e ensino dos quais contratou, de início, quatro mestres vidreiros ingleses e cinco operários genoveses. Para esta grande obra pôde Stephens contar com uma larga protecção do marquês de Pombal, que, por alvará de 7 de Julho de 1769, lhe emprestou sem juros, 80 000 cruzados, e que, além de outros benefícios, lhe deu permissão de tirar do pinhal do Estado, gratuitamente, toda a madeira de que a fábrica necessitasse, durante quinze anos. Este privilégio tornou-se depois permanente. Em 1826 João Diogo Stephens, colaborador e continuador da obra do seu irmão Guilherme, que morreu em Londres em 1802, dando cumprimento a uma convenção que os dois haviam feito, legou a fábrica à Nação Portuguesa, “em benefício da Marinha Grande em particular e utilidade deste reino em geral, em sinal de apreço pelos favores recebidos”.

Guilherme Stephens, a par do progresso que trouxe à indústria do vidro em Portugal, cuidou da educação dos seus operários, dando-lhes mestres de primeiras letras, desenho e música, e organizando fora das horas de trabalho distracções que visavam à cultura do corpo e do espírito. A marquesa de Alorna, num curioso soneto, associa a glória deste grande homem de acção à do rei-lavrador que passa por ter semeado o pinhal de Leiria.

Até há cerca de trinta anos, a indústria do vidro nesta vila limitava-se quase exclusivamente à fábrica do Estado. Mas de então para cá, e apesar dos privilégios que ainda protegem a antiga fábrica (entregue, desde 1919, a um regime de socialização dirigida por uma comissão administrativa), a iniciativa particular tem construído outras fábricas (catorze) das quais trabalham presentemente nove, empregando cerca de 1300 pessoas. Além disso, há duas fábricas de produtos resinosos, cujos primeiros ensaios datam de 1822, sendo uma do Estado, construída em 1869, dada de arrendamento a uma empresa particular, e que é hoje, no género, a maior e melhor fábrica do País; cinco fábricas de serração de madeira, sete de telha e tijolo, etc.

Alguns apelidos de famílias da vila são corrupções de nomes de operários estrangeiros (Birne, de Bearne, inglês; Galo, do alemão Gall, etc.) que há muitos anos vieram contratados para a Fábrica Nacional e aqui constituíram família e deixaram descendência.

Estradas para – 12 Km Leiria; 14,7 km Vieira; e – 8,2 Km S. Pedro de Moel. Está ainda em construção uma estrada para a Nazaré.

 

Da Marinha Grande a S. Pedro de Moel, pelo Pinhal de Leiria. [Por Afonso Lopes Vieira]

Saindo da Marinha Grande, pelo Sul da vila, encontra-se a estrada florestal (construída em 1881), sempre bem conservada, que conduz a S. Pedro de Moel. À entrada da mata vê-se um dos seus postos fiscais (Guarda Nova). Os carris são do Decauville do serviço de exploração.

É neste notável trajecto que pode ter-se uma intensa visão do Pinhal de Leiria, o mais vasto maciço vegetal do País (17 km de comprimento Norte-Sul por 5 de largura Este-Oeste, superior de 9315 hectares). Decerto anterior a D. Dinis, que teria regularizado e intensificado as sementeiras, o pinhal de Leiria é também um padrão de história, intimamente ligado ao ciclo dos Descobrimentos nacionais, como havendo fornecido a madeira dos navios.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhes deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a Terra e olhando os novos astros,
oh gótico Pinhal navegador,
em naus erguida levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros!…
Afonso Lopes Vieira, Ilhas de Bruma.

Pinhal de Leiria

 

“O aceiro do Pilado divide-o em dois julgados: Marinha Grande e Vieira. A mata assenta sobre solo ligeiramente acidentado ao Sul, onde se encontram as maiores altitudes, 112m na Ladeira Grande e 114m no Facho (altitudes das mais notáveis entre as dunas da Europa), com pendores suaves para o Norte e Oeste, cortados aqui e acolá pelo movimento das antigas dunas… A Este do ribeiro de Tábua, e em estreita orla que se estende até ao Sul da mata, o solo é constituído por depósitos lacustres, pertencentes ao terciário superior. O solo é nesta parte silicioso e, em geral, superficial, por assentar sobre surraipa impermeável, o que o torna muito húmido na estação das chuvas e muito seco no Verão. O resto da mata assenta sobre dunas mais ou menos modernas, de origem marítima. Clima francamente marítimo. Média anual, 13,5ºC, com máximas de 26,2ºC e mínimas de 2,4ºC. Ventos geralmente pouco violentos, predominando o Noroeste. Encontram-se afloramentos de ofite, de calcário explorado no fabrico de cal, etc.”

Estas noções são transcritas do Boletim (nº4) da Direcção-Geral de Agricultura, que contém um projecto de revisão do ordenamento, elaborado pelo distinto silvicultor, falecido, Dr. José Lopes Vieira, autor do notável projecto de rectificação da bacia do rio Lis.

Os incêndios são frequentes, mas os serviços florestais regulam proficientemente os trabalhos de extinção em que o povo coopera. No incêndio de 1824 arderam cerca de 5000 hectares de pinhal.

“O pinheiro bravo… é essência calcífuga, de temperamento robusto e grande porte. A madeira, conquanto de grão grosseiro, é suficientemente elástica e bastante resistente… Como todas as de cerne e borne, este é pouco duradouro e aquele muito. A formação do cerne principia por volta dos cinquenta anos; em todas as madeiras a camada variável dos crescimentos anuais é a da Primavera, motivo por que as madeiras em maciço são mais elásticas, duras e de maior duração, qualidade que aumenta com a resinagem. É este pinheiro o melhor produtor de resina do antigo mundo.” Boletim (nº4) da Direcção-Geral de Agricultura – A Memória sobre o pinhal nacional de Leiria, por F. M. Pereira da Silva e Caetano M. Batalha, é documento deveras notável para o seu tempo (1843).

Os exemplares gigantescos da floresta têm a pouco e pouco desaparecido. Em 1912 o pinheiro mais alto media 41m de altura por 3,7m de circunferência, contando cerca de 130 anos de idade.

Também os últimos aspectos bravios da espessura vão rareando. Há poucas décadas a mata era profunda e povoada de lobos e javalis. Não há, porém, memória de assaltos pessoais em toda a sua região.

Na sua fauna avulta o coelho, encontrando-se também a raposa, o texugo, o ginete, etc. Na flora (cf. Guilherme Felgueiras, Contribuição para o estudo da flora e da fauna da mata de Leiria, in “Boletim da Secretaria do Estado da Agricultura”, I, 1918, p. [113]-155) merece menção uma espécie bastante rara em Portugal, o samouco ou faia dos Açores (Myrica faia), das quais existem lindos exemplares perto de S. Pedro de Muel, mandados plantar pelo falecido silvicultor Sousa Pimentel, o qual, da sua cadeira de paralítico, em Lisboa, seguia o crescimento das árvores, recebendo as medidas dos troncos.

A actual exploração do Pinhal produz grande rendimento. Seria, contudo, desejável que na sede da Marinha Grande os serviços florestais estabelecessem um laboratório e um museu.

Voltando à estrada de que nos estávamos ocupando, vai-se esta desenvolvendo em curvas e acidentes do terreno, pelos talhões das dunas mais altas. Grande pena é que os cortes, projectados no ordenamento oficial, venham a prejudicar uma das nossas raras estradas que deliberadamente olhou aos interesses espirituais da paisagem, preferindo mostrar o mais bonito a chegar mais depressa. O caminho velho é mais curto e plano.

(Já depois que estas linhas se achavam escritas, a estrada foi destruída na sua principal beleza pelos cortes. Todavia, teria sido bem natural e humano que o ordenamento, determinado há cerca de 50 anos pelo sábio silvicultor Barros Gomes, se houvesse modificado, por inteligente deliberação ulterior. Assim a burocracia de Lisboa vai reduzindo uma estrada, que era interessante na Europa, a uma triste charneca!)

A vasta e sussurrante extensão de verdes sombrios, florida na Primavera pelo tojo doirado e no Outono pelo roxo das urzes, acha-se sulcada de aceiros (alamedas perpendiculares ao mar, abertas para defesa dos incêndios) e de arrifes (outras mais estreitas, transversais). Nas zonas de regeneração erguem-se, isolados, os pinheiros de sementeira, com a estilização das árvores dos pintores primitivos. A 2,5km à esquerda, passa-se ao curto ramal do Tromelgo, viveiro de essências. O ribeiro que a ponte atravessa é o de Muel, nascido para além do aceiro exterior e com foz na deserta Praia Velha (2km ao Norte de S. Pedro) depois de atravessar a notável Ponte Nova (2,5km de S. Pedro, caminhos de areia), um dos mais pitorescos passeios do Pinhal. Linda e forte vegetação no vale. Vista admirável, sobre a floresta e o mar, do alto do ponto de vigia, cujo acesso, por escada de ferro, é incómodo.

8,5km: Notável S. Pedro de Muel, pequena praia regional, mas bastante conhecida e frequentada por famílias de Leiria e de Lisboa.

  • Miramar Hotel (12 quartos), bem situado. Pensão (quatro quartos) nas casas de Domingos de Figueiredo Pereira e da viúva Rosa Lopes.
  • Carros de aluguer: Artur Vilela Matos da Silva.
  • Descanso semanal: 5ª feira.
  • Iluminação pública: petróleo.
  • Boa água na praça.
  • Bilhetes postais ilustrados: Artur Vilela Matos da Silva e Domingos de Figueiredo Pereira, em cujo estabelecimento está instalado o correio e telégrafo.
  • Cerca de 40 casas de aluguer, sem roupas.
  • Na praia não há barcos de aluguer nem posto de socorros. Tem uma extensão de 600m, e é perigosa para a natação. As ondas são das mais alterosas da costa portuguesa.

 Há cinquenta anos mantinha ainda um carácter assaz aristocrático, e, entre as famílias que possuíam casas, contava-se a dos Mousinhos de Albuquerque. Brito Alão, na Antiguidade da Sagrada Imagem de Nossa Senhora da Nazaré (1628), escreve: “Mais adiante há outro vale, e sítio formoso junto ao mar, a que chamam S. Pedro de Muel, mui cursado de Príncipes, e senhores eclesiásticos, e senhores, por ser a terra de muita caça de veados, e o mar de muito peixe, com penedos de muito marisco, e tem casas, porém não vive nelas senão o ermitão da ermida de S. Pedro”. A região de Moer, na qual há indícios de ocupação árabe, fazia parte dos Coutos de Alcobaça e vem citada na doação de terras feita por D. Afonso Henriques aos monges daquela abadia (Fr. Manuel dos Santos, Alcobaça Ilustrada). A povoação deve datar da época dos Descobrimentos, como posto de embarque de madeiras para os estaleiros da Ribeira de Lisboa. No local da actual praça ficavam as tercenas. Já D. Dinis, cuja memória e lenda persistem na região (o povo refere a lenda das povoações de Amor e Cegodim, e diz que a Rainha Santa esperou o marido infiel, alumiando-o com pinhas acesas), adaptara o vizinho porto de Paredes (7km ao Sul), cuja vila, soterrada pelas areias ou devastada por terramoto, teve importância, indo a sua população emigrada fundar a povoação da Pederneira (Nazaré).

São Pedro de Moel

A proximidade da floresta, e a sua situação aninhada nas dunas, dão a S. Pedro de Muel admiráveis condições climatéricas e excepcional serenidade atmosférica.

Ramalho Ortigão, citando esta praia entre as “obscuras”, assinalou-lhe “vizinhança magnífica: o Pinhal que é a primeira floresta portuguesa.” (Praias de Portugal, 1876)

O arvoredo que abriga o povoado, e constitui para este riqueza inestimável, não tem sido conservado com os cuidados devidos, a despeito dos esforços empregados por amadores da região.

Na actual capela, que descaracterizou uma ermidinha alpendrada, do século XVIII, existem duas rudes imagens do século XVI, decerto provindas da antiga capela de que o desgaste da rocha mostra vestígios (capela velha) e tinha “abóbada com muitos frisos e arco de pedraria.” (Registo do Bispado de Leiria). Os marqueses de Vila Real, com o célebre solar em Leiria, tinham casa aqui, em cujas dependências se albergavam os romeiros, e, dada a quase principesca prosápia da família, deviam de ter sido os senhores do lugar. A tradição reconta que a duquesa de Caminha, após a dramática decapitação do seu jovem marido (1641), ia sentar-se no que veio por isso a chamar-se Penedo da Saudade (1km ao Norte, ramal de estrada.) Neste local, com bela perspectiva sobre o mar e as penedias, encontra-se o farol de 2ª classe, construído em 1912 (torre de 24,4m de altura). Do Penedo avistam-se, em dias límpidos, ao Norte o Cabo Mondego, e ao Sul, a penedia de S. Martinho e a serra do Bouro, que se adianta à costa de Peniche. Anunciando quase sempre chuva, descobrem-se às vezes as Berlengas e os Farilhões.

 

This Post Has 9 Comments

  1. Parabéns pelo maravilhoso trabalho.

    1. Carlos Franquinho

      Muito obrigado pelas suas palavras Maria do Carmo. :)

  2. Apesar de só hoje me ter sido possível ler o seu trabalho, quero felicitá-lo pelo mesmo, baseado na pesquisa atenta e pormenorizada que faz sobre a história marinhense.
    São pequenos relatos destes que nos dão a conhecer melhor o nosso Passado e a Evolução que se tem feito sentir, embora por vezes esta sepulte para sempre determindas relíquias, mas como alguém disse: “A Evolução é o pior inimigo do passado”
    Obrigada.

    1. Carlos Franquinho

      É um prazer ler um comentário desses, vindo de alguém que tanto tem contribuído para a divulgação da nossa história local.
      Muito obrigado! :)

  3. Jovem da minha terra que tão bem a trata,estudando-a e elaborando um trabalho maravilhoso!Parabéns!

    1. Carlos Franquinho

      Muito obrigado Mimi! :)
      Ainda há tanto por descobrir. Haja tempo…

  4. Parabens por esta publicação Carlos Franquinho. Uma pequena correcção: Em 1927 não havia água canalizada. Esta só apareceu em 1952.

    1. Carlos Franquinho

      Caro António, a afirmação não é minha e sim do autor do texto de 1927 (João de Magalhães Júnior). :)
      Confesso que, na altura em que o li, também me causou alguma estranheza. A conclusão a que cheguei foi que, possivelmente, a interpretação que dariam ao conceito de “água canalizada” seria bastante diferente da nossa…

  5. parabéns também pelo grande trabalho que fizeram mudaram aquilo tudo muitos parabéns

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