Com a chegada de um imenso fim de semana como o que tivemos este ano por altura da Páscoa, cedo decidimos que seria uma excelente oportunidade para nos equiparmos com mochilas, binóculos e GPS, partindo à descoberta de mais um cantinho deste nosso Portugal. Depois de algumas hesitações, a escolha recaiu sobre o Geoparque de Arouca, região que nos era totalmente desconhecida.

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A 23 de Abril, nossa primeira paragem, porém, foi ainda a meio caminho do geoparque, em Sever do Vouga. Depois de um almoço rápido numas mesas de piquenique que ali encontrámos à beira estrada (e à beira Vouga), fizemos uma visita à Ponte do Poço de Santiago. Trata-se de uma obra de estrutura algo invulgar, datada dos primórdios do século XX. Atualmente o comboio que justificou a sua construção já não circula mas a Câmara local tem mantido este ex-líbris totalmente funcional, fazendo agora parte do percurso de uma esplêndida ciclovia. Um exemplo a seguir!
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A paragem seguinte foi já no geoparque. Tentámos visitar locais classificados como geossítios onde, nas proximidades, pudéssemos encontrar algumas caches: Obviamente! :D

Panorâmica da Costa da Castanheira
Trata-se de um geossítio classificado, essencialmente, pelo seu valor geomorfológico e pela vista panorâmica que dali é possível alcançar. Neste ponto, situado junto à vertente Sul da Serra da Freita, é suposto conseguir avistar-se o Atlântico ao longe. Lamentavelmente, quando por ali passámos, a fraca visibilidade e a ameaça de chuva não nos permitiu ver muito. Ali por perto, ainda houve tempo para fazermos a cache “Casa da Floresta da Felgueira de Arões”.
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Pedras Parideiras
Este é, provavelmente, um dos mais famosos geossítios do parque (e de Portugal?). A quantidade de visitantes neste local remoto confirma esta suposição. Andámos por ali cerca de 45 minutos e, com uns turistas a chegar e outros a partir, nunca estivemos sós, apesar da ameaça de chuva. A raridade do Granito nodular da Castanheira justifica bem esta romaria. Trata-se de um granito com cerca de 320 milhões de anos, que se distingue dos restantes pela presença de nódulos de quarzto-feldspático envolvidos em biotite. Estes nódulos, mais resistentes à meteorização que a rocha encaixante, acabam por se ir libertando lentamente. A este curioso fenómeno se deve o nome por que são habitualmente conhecidos: pedras parideiras.

Se à extrema raridade e interesse científico desta rocha associarmos os ancestrais mitos de fertilidade que lhe são atribuídos, facilmente se encontra explicação para a delapidação a que este património único tem sido sujeito. Compreende-se, assim, que a câmara municipal tenha sido forçada a cercar parte da área onde se verifica este fenómeno. Infelizmente, a cerca diminui consideravelmente o valor estético do local mas parece ser um mal necessário… Ficámos agradavelmente surpreendidos com a existência de um painel informativo no local. Parecia um bom prenúncio para os geossítios que ainda nos faltava visitar…

Por aqui fizemos duas caches: uma tradicional e a earthcache referente a este fenómeno.
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Marmitas de gigante no rio do Caima
As marmitas de gigante são buracos circulares, escavados pelo redomoinhar de pequenos seixos que ficam presos, durante algum tempo, nas rochas dos leitos dos cursos de água, exercendo uma intensa ação abrasiva. Lamentavelmente, os bons prenúncios com que saímos do geossítio anterior, logo caíram por terra na chegada às marmitas de gigante do Caima. Nem painéis informativos, nem indicações, nem caminho digno desse nome. Bem que tentámos lá chegar mas depressa o trilho se complicou demasiado e acabámos por desistir de chegar ao ponto.
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Miradouro da Frecha da Mizarela
A Frecha da Mizarela é a maior queda de água de Portugal e outro dos ex-líbris do geoparque. Situa-se na zona de contato entre os granitos da Serra da Freita e as rochas xisto-grauváquicas. Como o granito é mais resistente à erosão fluvial do Caima, formou-se este desnível de cerca de 70 metros. Enquanto planeávamos a viagem, considerámos a possibilidade de fazer o percurso pedestre que contorna a cascata pois essa é, sem dúvida, a melhor maneira de conhecer e apreciar o local. A ameaça de chuva e o piso molhado, porém, obrigaram-nos a mudar de planos, restando-nos apreciar a vista a partir do miradouro (onde fizemos mais uma cache).
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Contacto litológico da Mizarela e aspectos geológicos associados
O geossítio, bem próximo do miradouro da Frecha da Mizarela, é facilmente acessível. A falta de qualquer informação no local, no entanto, torna-o totalmente desinteressante para leigos. Uma vez lá, como identificar “o contacto nítido entre os metassedimentos ante-ordovícicos e o granito da Serra da Freita” ou “a rocha metamórfica (que) apresenta grande concentração de cristais de estaurolite”?? Enquanto nos debruçávamos sobre estas interessantes questões, eis que dois bovinos se aproximam de nós num rápido galope, pregando-nos um susto de todo o tamanho. Estavam apenas interessados em beber água num charco ali perto, mas ficámos com a nítida sensação que eram horas de prosseguir o nosso caminho. Parámos, de seguida, numa cache ali perto, que deu alguma luta pois implicou alguma escalada…
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Marco geodésico de S. Pedro Velho
Pela sua altitude e localização, este local é um ponto privilegiado para observação das caraterísticas geomorfológicas da região. Infelizmente, a ameaça de chuva que nos acompanho durante todo o dia não nos permitiu usufruir do local como gostaríamos. Em poucos minutos, demos por nós rodeados por nevoeiro intenso que nos obrigou a uma visita muito fugaz. Tempo, porém, para fazer as duas caches situadas nas imediações deste marco.
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Altura para fazer fazer o check in no hotel, uma visita rápida ao centro de Arouca e procurar sítio onde jantar… Ainda fizemos uma cache junto ao Jardim Municipal e considerámos a possibilidade de fazer outra junto ao mosteiro mas, com tantos muggles em volta, esta ficou para uma próxima.
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Bolas quartzodioríticas dos Viveiros da Granja
A manhã do segundo dia levou-nos a visitar os Viveiros da Granja e as suas gigantes bolas quartzodioríticas. Estas bolas não são mais que o remanescente dos caos de blocos resultantes da meteorização do maciço rochoso. Neste estádio já avançado, com a instalação de uma camada de solo e de vegetação frondosa, as rochas cobertas de musgo parecem ter sido ali colocadas quando, na verdade, foram a primeiras a chegar ao local. :)
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Panorâmica do Detrelo da Malhada
A partir deste local é possível observar grande parte da área abrangida pelo geoparque. Avistam-se ainda, ao longe, as distantes serras do Gerês e do Marão. Supostamente também é possível distinguir a Ria de Aveiro e o Oceano, mas nós não conseguimos ver nada. A cache que por ali havia, deu-nos mais trabalho do que suponhamos mas acabou por aparecer quando estávamos prontos a desistir.
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Galeria do Vale da Cerdeira
Para esta paragem estava reservada aquela que viria a ser a maior aventura destes dias – ainda que tenha ficado a meio. O destaque vai, desde logo, para a impressionante história deste local. A galeria do Vale da Cerdeira é a designação atribuída a umas antigas minas de volfrâmio, há muito abandonadas. Esta exploração teve os seus tempos áureos na década de 40 do século XX, quando o raro volfrâmio era um minério necessário ao endurecimento do aço e, por isso, muito procurado pelas potências em guerra na Europa. As minas de Vale Cerveira eram exploradas pelos Alemães. Umas minas nazis abandonadas no interior de Portugal – ora aí está algo que mereceria uma visita por si só! O acesso à mina implica uma caminhada de cerca de um quilómetro, mas é um esforço totalmente compensado pelo ambiente que ali podemos desfrutar. Os últimos metros (pelo menos nesta altura do ano) são feitos dentro de água pois, a dada altura, o caminho mistura-se com um pequeno riacho que por ali corre. Subitamente, estamos perante a entrada da mina e, mesmo sabendo ao que íamos, é uma visão que nos impressiona. Segue-se um clássico: “Então, a lanterna?”, “Pensei que tu é que a tinhas!”. Ficámos por ali.
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Portal do Inferno e Garra
Durante estes dias visitámos inúmeros miradouros mas o Portal do Inferno deverá ter sido o mais impressionante de todos. Trata-se de um estreito local de passagem situado entre duas vertentes íngremes, suscetível de provocar vertigens a algumas pessoas. A paisagem circundante é assombrosa. Infelizmente, a cache que deveria estar por ali, não apareceu.
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Panorâmica da Senhora da Mó
Mais um miradouro, este localizado bem próximo do centro de Arouca. Foi a nossa primeira paragem do terceiro e último dia. Além da interessante vista que o local proporciona, nada mais a destacar. A proximidade à povoação torna o local bastante mais frequentado (e menos interessante) que aqueles que visitámos anteriormente.
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Praia Fluvial do Vau
Apesar do acesso a esta praia ser um pouco complicado, a paisagem com que nos deparamos uma vez chegados, acaba por compensar os transtornos da viagem. Na margem do Paiva encontramos um local fresco e verdejante, com alguns recantos que convidam a uma paragem mais demorada. É o caso da pequena cascata da foz do ribeiro do Fontão onde um de nós, inesperadamente, acabou por ir ao banho. :D
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Aspetos geotetónicos de Espiunca
O último geossítio que visitámos é daqueles que passa totalmente ao lado de um visitante menos bem informado. Na realidade, não é mais que um talude resultante da passagem de uma estrada. Acontece, porém, que na rocha posta a descoberto, é possível identificar uma série de caraterísticas geológicas que, de outro modo, estariam fora de alcance. O destaque vai, obviamente, para a falha normal com um rejeito de 3 metros e que é facilmente identificável. É de lamentar, no entanto, não existir qualquer painel informativo no local. Deste modo, para o visitante ocasional, o geossítio não passará de um talude sem qualquer interesse…
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This Post Has 5 Comments

  1. Romulo

    Quantos kms achas que essa ecopista + as estradas circundantes têm? Nas fotos parece giro :)

    1. Carlos Franquinho

      Nós só percorremos pouco mais que uma centena de metros (para chegar à cache). Mas de acordo com este site, a ecopista tem atualmente 9km de 96 km previstos. :)

  2. Luis Bastos

    Viva

    Sou o dono da cache tradicional das pedras parideiras e foi assim que vim cá parar. O teu site foi direitinho para os favoritos. Muito bom artigo, apesar de viver à cerca de 30km do local confesso que não conheço todos os locais referidos.
    Do portal do inferno, um local de rara beleza, avista-se um caminho (foto 5) que dá para uma aldeia absolutamente inesquecível, a aldeia de Drave, também conhecida por aldeia mágica. É um local encantador e de uma beleza estupenda. É uma aldeia desabitada mas não abandonada já que é uma base nacional dos escuteiros. Para mim, é o mais belo segredo de Arouca. Que pena que não tenham ido até lá, pena mesmo.
    Quanto a mina que não atravessaram na localidade de Rio de Frades por causa da lanterna, nem sabem o que perderam no outro lado. Até hoje foi a melhor cache que fiz.

    1. Carlos Franquinho

      Oi Luis!

      Obrigado pelo comentário! :)
      Quanto aos locais a que não conseguimos ir desta vez, não há problema. É certo que voltaremos!

  3. José Cerca

    Excelente reportagem bem documentada com belas fotos sobre a linda e rica região do Geoparque Arouca.
    A riqueza do seu património histórico, natural, geológico e gastronómico bem merecem um regresso a este Concelho, até porque há um espaço não referido e que bem merece uma atenta visita: o Mosteiro de Arouca e o seu rico Museu de Arte Sacra.

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