(A fantástica imagem que ilustra este texto é da talentosa Izabela Bratkowski.)

Desde há muito que a literatura fantástica está entre o meu género literário preferido. Já li a generalidade dos grandes mestres (Tolkien, Pullman, Le Guin, McCaffrey…) e inúmeros pequenos autores, meros aspirantes a um lugar no pódio. Inevitavelmente, com o passar do tempo e o acumular de páginas lidas, torna-se cada vez mais difícil que um autor nos consiga surpreender. Já sabia, pelos comentários e críticas que se podem ler pela net, que o George R. R. Martin tinha o potencial para ser um desses autores. Felizmente, não desiludiu.

A Game of Thrones, no original, é publicado em Portugal pela Saída de Emergência em dois volumes: “A Guerra dos Tronos” e “A Muralha de Gelo”. Apesar desta divisão da obra, tão habitual nas editoras nacionais, ser algo questionável, reconheço que o livro ficaria imenso num volume único. Além desse pequeno reparo à edição nacional, farei apenas mais uma crítica: os brasões que aparecem na capa dos livros nada têm a ver com a história. Talvez seja um preciosismo da minha parte mas, numa obra em que o autor discorre linhas e linhas descrevendo os símbolos das diversas casas, seria de esperar que a ilustração os retratasse, ao invés de utilizar uma simbologia aparentemente inventada.

Quanto à obra em si, é maravilhosamente inovadora, de um forma que a afasta totalmente de toda a literatura do género. Na realidade, ao longo das suas 750 páginas haverá, talvez, duas ou três situações pontuais em que o fantástico está presente. Ao longo da extensa narrativa é mais fácil supôr que estamos perante um romance histórico dos tempos medievais. O fantástico está presente apenas como um distante som de fundo, como uma memória passada ou uma promessa futura. No presente temos apenas pessoas como nós, cheias de qualidades e defeitos, lutando por si e pelos seus.

Talvez seja, precisamente, na construção das personagens que George Martin se afasta radicalmente dos clássicos da fantasia. Se em Tolkien a luta do Bem contra o Mal é travada por seres bons contra seres maus, em Martin essa fronteira encontra-se muito diluída ou não existe sequer. As personagens da Guerra dos Tronos são, à falta de melhor palavra, complexas. Haverá certamente centenas de personagens ao longo da história e, para cada uma delas, o autor consegue transmitir  a complexidade da sua personalidade. Martin investe, de forma inequívoca nesta construção. A intenção é clara: quer que nos identifiquemos com esta ou aquela personagem. Quer que nos apaixonemos ou que odiemos este ou aquele individuo.

E, quando atinge o seu objetivo, após longo esforço da sua parte, o autor troca-nos as voltas de uma forma magistral. Quando julgamos conhecer alguém, percebemos que temos andado a ser enganados, quando nos apaixonamos por uma personagem, ele mata-a com uma frieza desoladora, fazendo-nos crer, até à última linha que a esperança existe.

Este é, provavelmente, um dos livros mais violentos que já li. Para Martin, nada é sagrado: a família, a infância, a honra não são proteção. Na luta pelo poder (é disso que se trata), vale tudo e, a dada altura, já esperamos mesmo tudo. Ler a página seguinte torna-se, simultaneamente, uma ânsia, uma necessidade e uma angustia, de tal forma que, uma vez agarrados à história, a única hipótese é terminar o mais rápido possível.

Por tudo isto, e por muito mais, esta é uma obra que entra diretamente para o meu top, lado a lado com o Senhor dos Anéis, com o qual, felizmente, não se poderá comparar!

Finalmente, uma última palavra a propósito da série TV que agora estreou no HBO. Depois de ver os dois primeiros episódios, saltam à vista quer as diferenças quer as semelhanças. A história parece estar lá toda e, no entanto, parece faltar-lhe uma cor e uma vivacidade que estão presentes em cada página do livro. É como se a série fosse um relato impessoal, ao qual falta a emoção e profundidade da obra literária. Talvez seja inevitável. De qualquer forma, é uma boa solução para quem não está interessado em adormecer todas as noites com estes calhamaços ao lado. ;)

 

This Post Has 6 Comments

  1. Bem.. cada vez fico mais curiosa e ansiosa por ler a obra! Mas… os calhamaços da escola onde ficam?! :(

  2. Olá :)

    já vi a série (muito bom) a mulher é q tem os livros (acho que ainda não os leu), já agora carlos… como é que se diz amigos em Navajo? (hehehe ;) )

    1. Carlos Franquinho

      Diz-se Sih-kiss.’ :D
      Mas estou curioso. Conhecemo-nos? (Tenho uma suspeita, mas…)

      1. Se nos conhecemos? lol depende… bem na realidade à mais de 10 anos atrás foste talvez o meu primeiro amigo “online” gendgi é o nome do nosso gato meu e da … carluxa? :p antigamente o meu nick era mais feroz… Wolfman lol.

        1. E essa pergunta “como é que se diz amigos em Navajo?” foi o que eu perguntei quando estavamos à procura do nome para um canal no mirc…o fantastico “Eterno” hehehe.

        2. Carlos Franquinho

          Wolfman? carluxa? Não, não estou a ver! :D
          eheheh

          Já imaginava que eras tu!

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