[nggallery id=21]

As arribas calcárias de São Pedro de Moel tiveram a sua génese no Jurássico Inferior, num processo de sedimentação marinha, resultado da deposição das conchas de inúmeros organismos, os quais são ainda perfeitamente identificáveis, na forma de fósseis, ao longo das diferentes camadas estratigráficas que ocorrem no local.

[nggallery id=22]

Após a deposição destes sedimentos e a sua subsequente diagénese, toda a estrutura foi afetada por um conjunto de deformações patentes no local: dobras, falhas, fraturas e inclinação intensa das camadas. Estas deformações resultam da ação do diapiro de São Pedro de Moel – Marinha Grande que, constituído por material menos denso que as rochas sedimentares calcárias, tende a ascender em direção à superfície, deformando as camadas superiores, acabando por expô-las à erosão no modelado que hoje encontramos.

[nggallery id=23]

Ao longo dos séculos, a imponência destas arribas tem sido fonte de algumas lendas onde é possível constatar a admiração que conquistaram no coração das populações (ainda que, por norma, sejam palco de tragédias). A mais célebre destas lendas está relacionada com a Duquesa de Caminha que, após perder o seu marido de forma trágica, ali se refugiou, indo todos os dias chorar a sua mágoa naquele que hoje é conhecido como o Penedo da Saudade e onde está instalado o farol. Deste modo, estas arribas, através da sua história, adquirem um valor cultural inquestionável.

Considerando a localização destas estruturas geológicas, verificamos que possuem caraterísticas algo invulgares no concelho da Marinha Grande. De acordo com a carta geológica da região, a esmagadora maioria deste concelho é constituída por areias de origem Miocénica ou Plio-Plistocénica (em tons de branco/amarelo na imagem abaixo). Uma estrutura rochosa Jurássica de origem sedimentar (em tons de azul na imagem abaixo) assume, deste modo, um observatório ímpar para o estudo da geologia e da paleontologia de toda a região. O seu valor científico e educativo está assim totalmente justificado.

A beleza inigualável da praia de São Pedro de Moel, justamente considerada a mais bela da costa ocidental de Portugal, em muito se deve à geomorfologia do local. O valor estético da região deve tanto ao farol e à arquitetura tradicional como à sua geologia.

Não podemos esquecer, ainda, o valor funcional destas frágeis encostas. São elas que suportam a atividade humana. Não é preciso afastarmo-nos mais que alguns metros para constatar que, quer o farol do Penedo da Saudade, quer a estrada marginal, encontram suporte nesta herança jurássica.

Lamentavelmente, toda esta estrutura geológica se encontra ameaçada pela forte erosão marítima. Não sendo, obviamente, uma ameaça diretamente imputável ao ser humano, é, inequivocamente, por ele potenciada. As alterações climáticas, o aquecimento global, o aumento do nível médio do mar, são frutos da ação humana. A má gestão da faixa litoral, a sua urbanização excessiva e a instalação desregrada de estruturas de “proteção costeira” são fatores potenciadores de erosão. Então, em última análise, é o Homem o principal responsável pelo aumento da erosão litoral.

As “soluções” encontradas, por outro lado, carecem totalmente de fundamento científico. Para a região de São Pedro de Moel, assim como para a generalidade da faixa litoral nacional, equacionam-se intervenções que consistem na colocação de betão nas falésias, por forma a garantir a sua sustentação. Substitui-se, deste modo, uma ameaça a médio prazo por uma ameaça a curto prazo. A cimentação de parte destas arribas irá desvirtuar totalmente o valor estético da região e cobrir com uma camada de cimento o seu valor científico e educativo.

Deixar um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.