A relação que as empresas estabelecem com o campo da biodiversidade varia consoante o grau de dependência que os diferentes sectores económicos apresentam face aos serviços dos ecossistemas. De acordo com Mendes Palma et al, no contexto da economia nacional, serão oito as atividades que se destacam pela sua maior relação com a biodiversidade: Agricultura, Floresta, Caça e Pesca desportiva e de recreio, Pesca, Água, Energia, Turismo e Serviços Financeiros.

Apesar da análise de cada uma destas atividades revelar diferentes graus de relação, dependência e interesse na preservação da biodiversidade, julgo serem notórios alguns motivos globalizantes e transversais aos diferentes sectores:

  1. a preservação a biodiversidade como recurso necessário à continuidade do negócio;
  2. a conservação da biodiversidade por imperativos legais ou benefícios fiscais;
  3. a preservação da biodiversidade como tentativa de atrair clientes.

Efectivamente, e apesar das diferentes metodologias seguidas por cada uma das atividades anteriormente mencionadas, todas elas, sem exceção aparente, recaem sobre um ou vários destes pontos.

1. A preservação da Biodiversidade como recurso necessário à continuidade do negócio
Naturalmente, as atividades cuja relação com a Biodiversidade é mais próxima e, portanto, aquelas que veem na sua degradação consequências mais imediatas, são as primeiras a reconhecer o valor deste bem natural.

A este nível, é de destacar positivamente, o desempenho do sector florestal nacional. Ao longo do século XX, quando as preocupações com a Biodiversidade e a sustentabilidade eram inexistentes, ou encaradas como meras “curiosidades académicas”, a área florestal em Portugal, aumentou consideravelmente. Apesar dos inevitáveis erros cometidos (dos quais, a eucaliptização desenfreada é o mais notório), assistimos aqui, provavelmente, à primeira tentativa racional de conservação de um recurso natural que, de outra forma, poderia hoje estar em risco.

Do outro lado da balança, encontramos o sector das pescas. Embora diretamente dependente da Biodiversidade para a continuidade da sua atividade, não parece ter existido, até muito recentemente, um interesse explicito na conservação dos recursos naturais de que depende. Como resultado desta falta de proteção, estes recursos têm vindo a atingir, ao longo das últimas décadas, mínimos históricos, que se traduzem numa severa recessão nesta atividade económica.

Talvez esta diferença de atitudes se justifique pela maior visibilidade dos recursos florestais face aos recursos piscícolas: a diminuição da área florestal é humanamente percetível e mensurável, enquanto a degradação dos ecossistemas marinhos é uma realidade demasiado afastada do cidadão comum para que se torne uma prioridade.

2. A conservação da biodiversidade por imperativos legais ou benefícios fiscais
Ao longo das últimas décadas, foi-se tornando notória a necessidade de legislar no sentido de preservar os recursos naturais. A degradação contínua dos ecossistemas até ao ponto de ruptura e uma diminuição catastrófica da Biodiversidade seriam uma realidade incontornável caso os sucessivos Governos não viessem, ao longo dos anos, a definir regras sucessivamente mais rígidas de apoio à Biodiversidade e sua conservação.

A preocupação do sector económico pelas questões ambientais parece ser, ainda, meramente virtual. A questão de fundo, continua e continuará a ser meramente económica, ainda que as empresas tentem passar uma mensagem pró-ambiental.

Deste modo, a regulamentação de várias atividades, através de legislação específica que visa a proteção da Natureza nas suas diversas vertentes, torna-se imperativa.

Como exemplo típico, temos o caso da produção agrícola. Sem uma política que beneficie uma gestão agrícola sustentável, em Portugal, este sector seguiria, provavelmente, um de dois caminhos: um sistema de produção intensivo que acabaria por contribuir drasticamente para a degradação do ambiente, ou o progressivo abandono da atividade agrícola e a consequente destruição dos habitats seminaturais.

3. A preservação da biodiversidade como tentativa de atrair clientes
Uma sociedade civil progressivamente mais interessada e informada, tem tendência a escolher produtos e serviços produzidos por empresas cujos métodos de produção preservem o Ambiente e a Biodiversidade. Cientes de que este é, cada vez mais, um fator de peso na escolha dos seus serviços, as empresas têm vindo a apostar, progressivamente, na certificação ambiental das suas atividades.

Não se trata, uma vez mais, de uma verdadeira preocupação ambiental, mas sim de uma forma de marketing e publicidade. Só assim se justifica, do ponto de vista empresarial, a aposta na conservação da Biodiversidade. Tratam-se, em qualquer dos casos, de nichos de negócios embrionários e cujo retorno económico pelas empresas é, geralmente, esperado a longo prazo, consoante as questões ambientais se vão tornado progressivamente mais incontornáveis.

Conclusão
Em Portugal, algumas empresas começam a despertar para o problema da necessidade de conservação da Biodiversidade. Seja porque dependem diretamente dos serviços dos ecossistemas, seja por imposição legal ou simplesmente porque esperam, dessa forma, gerar novas receitas, algumas empresas deram já alguns passos pioneiros.

Parece licito questionar se os reais motivos que levam estas empresas a entrar no domínio da conservação serão os mais corretos. A resposta parece ser, naturalmente, negativa, mas não parece haver, atualmente, outra forma de seduzir o sector empresarial para a necessidade de conservação. Não se vislumbra, a curto ou médio prazo, outra forma de responsabilizar o sector privado para um problema que também é seu.

Mendes Palma, afirma que “uma tarefa com esta dimensão requer que seja ultrapassada uma visão imediatista dos interesses sectoriais, em beneficio da capacidade e disponibilidade para a negociação dos novos equilíbrios da sustentabilidade.

Assim, os papeis da Sociedade Civil e do Estado, continuarão a ser os alicerces fundamentais na busca de um Ambiente equilibrado e de uma Biodiversidade livre de ameaças. É a pressão dos consumidores e a a legislação que, em última análise, influenciam as opções e estratégias empresariais. Seria utópico e irreal, deixar nas mãos das empresas privadas a gestão total do nosso Ambiente. De certa forma, estamos apenas a tentar utilizar o sector privado como instrumento para a conservação de um bem que é de todos.

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