Os cogumelos correspondem ao corpo frutífero dos fungos das divisões Basidiomycota e Ascomycota. Entre estes, contam-se várias espécies comestíveis e outras letalmente tóxicas. Do ponto de vista culinário as espécies comestíveis, podem ser adquiridas frescas, secas ou em conserva. Neste último caso, trata-se de um alimento devidamente cultivado, preparado e rotulado pelo que o seu consumo se banalizou e não se observa atualmente, por parte do consumidor, qualquer tipo de perceção de risco associado ao seu consumo.

Os cogumelos frescos vendidos nas superfícies comerciais, por outro lado, apresentam um risco percebido por parte dos consumidores. Curiosamente, observa-se neste tipo de alimento, um comportamento quase inverso ao verificado noutros grupos alimentares: geralmente a preferência dos consumidores recai sobre os produtos frescos e caseiros, com o menor nível de produção mecanizada possível.

O risco percebido associado a este tipo de alimento, ultrapassa a compra e é extensível ao consumo do produto colhido diretamente do campo pelos denominados “conhecedores de cogumelos”.

O fator que provoca esta perceção de risco por parte do consumidor é o vetor “receio”: entre as inúmeras espécies de cogumelos silvestres, encontram-se espécies comestíveis muito semelhantes a espécies tóxicas. Mesmo entre aqueles que se consideram conhecedores, é comum ocorrerem enganos fatais. A comunicação social tem por hábito relatar estes acontecimentos que ocorrem de forma cíclica, em determinadas alturas do ano:

“Os cogumelos venenosos crescem lado a lado com os comestíveis e são extremamente difíceis de distinguir mesmo para especialistas. Basta a ingestão de uma pequena porção do cogumelo ou do molho do cozinhado para originar sintomas graves. A taxa de mortalidade é muito elevada e em alguns tipos de intoxicação o único tratamento salvador é o transplante hepático”, explica Helena Porfírio, directora clínica do Hospital Distrital de Pombal.

in Correio da Manhã, 21 de Novembro de 2009

Deste modo, o consumidor adquire a noção que a possibilidade de consumir um cogumelo tóxico em lugar de um comestível é elevada e que daí poderão resultar consequências fatais a curto prazo.

Poderemos considerar, então, que é o medo do consumo de cogumelos tóxicos que está na base do vector receio associado ao risco de compra ou consumo de cogumelos frescos. Com efeito, no ato de aquisição deste produto, o consumidor desconhece a sua origem e o processo de seleção a que é submetido, subsistindo uma desconfiança quanto à comestibilidade do produto.

Resulta assim, em qualquer dos casos (compra ou consumo de cogumelos frescos), uma tentativa por parte do consumidor, de evitar, acima de tudo, os riscos físicos que poderiam resultar do consumo de cogumelos tóxicos em lugar de cogumelos comestíveis.

O risco percebido reduz a probabilidade de ocorrerem situações deste tipo. Os consumidores optam pelos cogumelos em conserva, produto de origem conhecida e seleção rigorosa, ainda que, eventualmente, estes impliquem uma despesa monetária maior.

Casos há, no entanto, em que a motivação dos consumidores é de tal ordem, que os leva a ignorar os riscos. Os “conhecedores de cogumelos” estão sujeitos, geralmente, a um estado de implicação permanente. Embora, habitualmente, estes consumidores não sejam compradores de cogumelos, optando antes pela sua recolha no meio natural, é possível observar, na sua atitude, um entusiasmo, uma vontade de saber e de transmitir conhecimentos (em troca, possivelmente, de um determinado estatuto social) que são características de um estado de implicação permanente.

Prova-se, no entanto, que esta implicação, não reduz, no caso em análise, os riscos associados ao consumo deste tipo de produto.

José Manuel Romãozinho, director da Unidade de Cuidados Intensivos do Serviço de Gastroenterologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), reforça o aviso: “Dos que têm sobrevivido, não há um que não me tenha dito que estava convencido de que sabia distinguir os cogumelos venenosos”.

in Correio da Manhã, 21 de Novembro de 2009

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Close Menu