Leonardo, o anatomista

Leonardo, o anatomista

O movimento Renascentista, não foi uma mera transformação cultural ou artística. Tratou-se de uma revolução em campos tão distintos como o da política, da religião, das ciências ou da sociedade. Em certa medida, carateriza-se pela transição de uma sociedade feudal para uma sociedade capitalista ou, por outras palavras, pela passagem do mundo medieval para o mundo moderno. Numa época com estas características de transição e mudança, é compreensível que o Homem do renascimento questione os dogmas do passado e tente, por experiência própria, encontrar novas explicações para o mundo que o rodeia.

Leonardo da Vinci (1452-1519) é, geralmente, considerado como o modelo do Homem Renascentista. O seu domínio em áreas tão diversas como a arte e a ciência, a engenharia e a música ou a botânica e a escultura, tem conseguido perpetuar a lenda e a sua genialidade ao longo dos séculos.

A enorme curiosidade em compreender o funcionamento do mundo que o rodeava, terá levado Leonardo a seguir um método de teorização, hipótese e experiência que o distanciam dos autores seus contemporâneos e o aproximam da ciência moderna. Aliando esta metodologia à sua inigualável capacidade artística, compreende-se, finalmente, a importância das suas inúmeras ilustrações técnico-científicas, de entre as quais os esquemas anatómicos são apenas um exemplo.

Apesar da prática da dissecação não fosse, à altura, proibida na Europa, o estudo da anatomia era feito de forma algo distante, com o professor comentando o manual enquanto um cirurgião realizava a dissecação à qual os alunos assistiam. Os dogmas do passado imperavam e a noção de “impureza” estaria, certamente, presente. Deste modo se perpetuavam as explicações metafísicas e o conhecimento escolástico que pouco tinham a ver com a realidade.

Os resultados das dissecações realizadas por Da Vinci têm, à partida, uma mais valia inquestionável em relação à generalidade dos autores da época: as ilustrações de um artista ímpar (fig. 1).

Figura 1 - Estudo do braço e ombro

O novo olhar de Leonardo sobre o corpo humano, porém, vai além das ilustrações. A tentativa de compreender e explicar o objeto observado, sem recorrer ao saber do passado, levou-o a percorrer novos caminhos nesta área da ciência. Ao longo dos anos, terá o autor executado a dissecação de 30 cadáveres, de homens e mulheres, sendo pioneiro no estudo da embriologia humana.

A atenção prestada aos detalhes, faz com que a obra de Leonardo seja, cinco séculos volvidos, um ponto de referência e de inspiração: em 2005, um cirurgião do Hospital de Papworth, em Cambridge, desenvolveu uma nova técnica de cirurgia cardíaca após a análise dos esquemas do coração elaborados por Da Vinci.

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