Serviços de Ecossistema – reconhecendo a realidade

Foi necessário percorrer um longo caminho, repleto de obstáculos e percalços, para que o Homem tomasse consciência do que deveria ser óbvio: como fruto da evolução e como mero membro da biodiversidade terrestre, também nós estamos inteiramente dependentes dos serviços dos ecossistemas. Durante milhares de anos, sempre tomámos como garantidos todos os bens e produtos que a Natureza nos oferece, sem questionar a sua disponibilidade ou sem considerar os seus eventuais custos. Como resultado, fomos utilizando abusivamente todos os recursos naturais quase até à sua exaustão, fomos deteriorando os ecossistemas quase até ao ponto de não ser possível a sua recuperação.
Em 1992, no âmbito da Convenção para a Diversidade Biológica, abriram-se, finalmente, as portas para uma maior compreensão da nossa dependência dos ecossistemas e dos passos necessários para a sua preservação.

Biodiversidade: transformando a crise em negócio

Após a tomada de consciência da necessidade de preservar a biodiversidade como base de sustentação dos serviços de ecossistema, dos quais depende o bem estar humano, surge uma questão incontornável: como aliciar o sector privado a participar ativamente nesta preservação? À partida, parecerá algo utópico solicitar às empresas, cujo objetivo é a obtenção de lucro, que invistam capital neste campo sem com isso vislumbrarem quaisquer benefícios a curto prazo.
Se para alguns ramos de atividade, caso da agricultura, da caça ou do turismo, o valor da biodiversidade é intrínseco e inquestionável, para outros sectores, como é o caso de inúmeras industrias e serviços, não é tão fácil encontrar uma relação direta entre a biodiversidade e a atividade exercida. O elemento de ligação são, inevitavelmente, os serviços dos ecossistemas, de que todas as atividades económicas dependem, direta ou indiretamente.

A questão, porém, mantém-se: porquê pagar por um bem ou serviço que se encontra abundantemente disponível e do qual sempre todos puderam usufruir sem contrapartidas? O primeiro passo para responder a esta questão, será avaliar os riscos associados à perda de biodiversidade.

Em primeiro lugar, uma sociedade civil cada vez mais informada e exigente, tenderá a optar, preferencialmente, pelos produtos e serviços de empresas ecologicamente responsáveis. As implicações legais de uma má conduta ambiental, como é o caso da aplicação do principio do poluidor pagador, poderão ter um peso determinante na sobrevivência económica das empresas. Finalmente, o uso sustentável dos recursos biológicos é, em última análise, condição necessária para a sobrevivência de todas as empresas pois, a quebra dos serviços de ecossistema implicará a ruptura do fornecimento de bens indispensáveis.

Por uma simples análise da situação inversa, encontraremos uma oportunidade associada a cada um destes riscos: empresas socialmente responsáveis atraem investimento, os produtos e serviços ecologicamente certificados têm maior procura, uma racional utilização dos recursos traduzir-se-á numa redução de custos.

Compreendendo a necessidade imperativa de conservar a biodiversidade, coloca-se, finalmente, a questão: como o fazer? A multiplicidade de respostas possíveis, dependerá do tipo de empresa e de atividade económica em que se insere. Uma primeira análise desta questão revela duas possibilidades:

  1. O negócio tem impacto na biodiversidade: efectivamente, é virtualmente impossível consolidar uma empresa sem qualquer impacto ambiental, pelo que restará aos seus gestores implementar uma politica de controlo ambiental que reduza ao mínimo os prejuízos ambientais provocados pela sua atividade.
  2. A biodiversidade é o próprio negócio: caso de empresas que adquirem terrenos com alto valor de biodiversidade com intenção de os preservar, que controlam o acesso a espécies ou habitats mediante um pagamento, ou que fazem a gestão da biodiversidade em determinadas áreas.

E é, finalmente, na relação entre estas duas vertentes que se encerra o novo paradigma da biodiversidade como negócio. Uma vez que é praticamente impossível reduzir a zero os impactos na biodiversidade, as empresas deverão compensar a sociedade investindo em créditos ambientais, ou seja, recorrendo aos prestadores de serviços cujo negócio é a conservação (ou recuperação) da biodiversidade.

De acordo com Mendes Palma, et al., 2008, “Os mercados para os serviços dos ecossistemas, e da biodiversidade em particular, têm vindo a desenvolver-se consistentemente ao longo da última década. Existe a convicção generalizada entre os diferentes players do sector de que esta é uma área de negócio que irá experimentar um acelerado crescimento na próxima década, como alguns dos exemplos dados anteriormente deixam antever”.

Apesar de não se encontrar uma referência explicita no texto do autor, esta visão dos factos parece apontar, quase na totalidade, para o cenário de “Jardim Tecnológico”, traçado pelo Millennium Ecosystem Assessment. Efectivamente, neste cenário, é encorajada a expansão de mercados em serviços de ecossistemas o que se traduzirá numa solução para o conflito entre a economia e o ambiente. Apesar de ser este, porventura, o mais idílico dos quatro cenários descritos neste relatório das Nações Unidas, não é, porém, isento de desvantagens.

A inevitável tentação para gerir todos os ecossistemas do planeta poderá ter o efeito contrário ao desejado. A visão humana (necessariamente simplista) do mundo natural, poderá pôr em causa a sobrevivência de espécies que, possivelmente, não estariam ameaçadas caso os seus ecossistemas ou habitats se mantivessem totalmente selvagens. Por outro lado, o Jardim Tecnológico, dependerá em larga escala da engenharia ecológica e da biotecnologia, diluindo-se a fronteira entre o natural e o artificial, ou seja, haverá tendência para artificializar a Natureza.

Esta visão de futuro depende, obviamente, das ações no presente. Apesar das preocupações ambientais, entre as quais se encontra a quebra da biodiversidade, se encontrarem na ordem do dia, há inúmeros fatores político-sociais que poderão condicionar as decisões tomadas e, consequentemente, os caminhos a trilhar. É impensável, nos dias de hoje, exigir às empresas dos países em desenvolvimento, que coloquem a biodiversidade no topo das suas prioridades. Muitas vezes, porém, é nesses países que a conservação é mais urgente.

Alguns passos importantes foram dados no bom sentido. Compreendemos hoje a importância dos serviços dos ecossistemas e a sua relação com a diversidade da vida na Terra. Esta informação tem conseguido chegar à sociedade civil e aos decisores económicos. Encontrámos alguns métodos que permitirão atingir um equilíbrio entre o progresso e a conservação. Resta, finalmente, encontrar forma de agir de uma forma global, sem esquecer as especificidades regionais de cada país ou região.

As empresas, assim como os indivíduos, não terão propriamente escolha entre preservar ou não preservar a biodiversidade: a conservação é um imperativo. Falta-nos apenas encontrar o melhor método de o fazer.

A imagem que ilustra este post é da autoria de Dano, no Flickr.

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