Maculinea alcon. Fotografia de Humberto Grácio.
Maculinea alcon. Fotografia de Humberto Grácio.

A borboleta Maculinea alcon (Denis & Schiffermüller, 1775), é um dos 30 lepidópteros da família Lycaenidae que ocorrem em Portugal. Apesar de uma vasta distribuição, desde a Europa Central e Meridional até à Ásia Central, as suas populações, dispersas, encontram-se em declínio muito acentuado em determinadas áreas.

Tal como acontece com outras espécies do género Maculinea, esta borboleta tem um ciclo de vida tão complexo como curioso. Depois da eclosão dos ovos, a lagarta alimenta-se durante algum tempo da sua planta hospedeira, a Gentiana pneumonanthe (L.). Após esta fase, no entanto, a larva abandona a planta e é “adotada” por formigas do género Myrmica, residindo os nove a dez meses seguintes dentro do seu ninho, como parasita.

Embora as larvas de outros licaenídeos consigam proteção dos predadores estabelecendo uma relação de mutualismo com algumas formigas, esta espécie vai mais longe. Através de um engenhoso processo de sedução química, consegue levar as formigas que eventualmente a encontrem, a transportá-la para o seu formigueiro. Uma vez aí, este mimetismo químico leva as formigas a alimentá-las até à fase de crisálida, durante a qual continuarão a ter a proteção da sua “família adotiva”.

A borboleta adulta emerge do seu casulo, ainda dentro do formigueiro, três a quatro semanas depois de iniciada a fase de pupa. Finalmente desprovido da sua proteção química, o lepidóptero precisa abandonar o formigueiro ou corre o risco de ser atacado pelas formigas. Uma vez ao ar livre, poderá, finalmente, expandir as asas e voar.

Maculinea alcon. Fotografia de Humberto Grácio.
Maculinea alcon. Fotografia de Humberto Grácio.

A dependência da planta hospedeira, onde são colocados os ovos, por um lado, e das formigas do género Myrmica, por outro, reduz, em muito, os nichos disponíveis para esta espécie. Deste modo, só em turfeiras e matos higrófilos que alberguem estas espécies, poderemos vir a encontrar esta borboleta.

Em Portugal, apenas nalgumas regiões, essencialmente a Norte do Douro subsistem as condições de habitat necessárias à sobrevivência da espécie. Apesar de se conhecerem cerca de uma dezena de populações, é na zona do Alvão/Marão que a M. alcon se encontra melhor representada, pelo que será esta a população com maior possibilidade de sobrevivência a longo prazo.

Entre as ameaças à sobrevivência desta borboleta, devemos destacar, em primeiro lugar, a intervenção humana:

  • se o abandono dos pequenos campos de cultivo, leva, por um lado, à profusão de matos inapropriados para a espécie, noutras áreas, a intensificação da agricultura contribui também para o desaparecimento das turfeiras e, consequentemente, da imprescindível Gentiana;
  • os fogos florestais, agindo, quer diretamente sobre os indivíduos, quer indiretamente sobre as espécies de que depende esta borboleta, são inevitavelmente, um fator de ameaça;
  • a construção civil, quer seja de urbanizações privadas ou de obras públicas, contribui de forma intensa para a destruição de um habitat, já de si tão frágil;
  • as actividades turísticas sem regra levam ao distúrbio da espécie, e à destruição dos solos, aumentando, desta forma, a pressão ecológica;
  • finalmente, a fragmentação das populações e o isolamento, impedindo o fluxo genético da espécie, aumentam também a sua vulnerabilidade.
Ovos de Maculinea alcon. Fotografia de Humberto Grácio.
Ovos de Maculinea alcon. Fotografia de Humberto Grácio.

De acordo com David Nash, estaremos também perante uma “corrida evolutiva“ entre os lepidópteros do género Maculinea e as formigas que parasitam. Segundo este autor, as borboletas têm melhores hipóteses de sucesso quando transportadas para formigueiros que não tenham sido parasitados anteriormente. As formigas que tenham caído no engodo uma vez, são mais difíceis de iludir.

Provou-se, também, que a presença de rainhas no formigueiro, é também um dado chave na sobrevivência das larvas enquanto parasitas. Julga-se que na presença de rainhas, o tamanho das lagartas (maiores que as formigas), leva os seus hospedeiros a considerá-las uma ameaça à sua colónia e, consequentemente, a matá-las.

A legislação Europeia, contempla já o género Maculinea entre as espécies a proteger, impedindo a sua captura ou comércio, protegendo os seus habitats e monitorizando as populações.

Em Portugal, a aplicação da legislação comunitária à realidade nacional, parece não ter acompanhado esta espécie, uma vez que no estudo europeu não são referidas as populações portuguesas. Apesar de tudo, o TAGIS, Centro de Conservação de Borboletas de Portugal tem realizado, no Parque Natural do Alvão, algumas contagens de forma a avaliar a importância desta população.

M. alcon – individuo marcado. Fotografia de Humberto Grácio.

Torna-se urgente adaptar o conjunto da legislação europeia à realidade nacional.

A pesquisa sobre a biologia e a ecologia desta espécie são outra prioridade. Compreender os mecanismos da relação que se estabelece entre as lagartas e as formigas poderá revelar-se um passo decisivo para a sua proteção.

M. alcon - acasalamento. Fotografia de Humberto Grácio.
M. alcon – acasalamento. Fotografia de Humberto Grácio.

Apesar de a mais viável população portuguesa se encontrar num Parque Natural, parece inevitável o choque entre a defesa desta espécie e os interesses da população local. A construção de redes viárias ou de quaisquer infraestruturas de elevada área, serão um risco potencial para a Maculinea alcon. Por se tratar de uma borboleta, gozará de alguma simpatia, fruto da sua beleza, mas… “É apenas um inseto”, e como tal, será fácil imaginar a contestação quando a sua proteção se colocar no caminho do progresso da região.

A solução talvez passe pela informação e formação dos residentes da região. Trata-se de fazer compreender a invulgaridade deste pequeno ser, de tal forma que o desejo de o proteger parta, em primeiro lugar, dos homens e mulheres que partilham o espaço com ele.

 

Agradecimentos
Pela imediata disponibilidade em partilhar os seus conhecimentos, assim como o material necessário para a realização deste trabalho, gostaria de deixar o meu apreço ao Dr. Eduardo Marabuto, ao Sr. Humberto Grácio e ao Sr. João Pedro Cardoso.

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