Os eclipses solares são, certamente, os eventos astronómicos de maior mediatismo. A sua acessibilidade e espetacularidade, tornam-nos passíveis de ser observados por qualquer indivíduo que sinta curiosidade pelo que se passa acima da sua cabeça. (Na realidade há outros eventos que poderão ultrapassar largamente a espetacularidade de um eclipse – caso da explosão de uma supernova, mas, dada a sua raridade e imprevisibilidade, é melhor não contar com eles).

O ano de 2005 brindou-nos com um dos três eclipses anulares observáveis no nosso país durante todo o século XXI (os próximos serão em 26 de Janeiro de 2028 e em 27 de Fevereiro de 2082).

Justifica-se uma pequena explicação. Os eclipses solares ocorrem quando a Lua, no seu percurso, atravessa a frente do disco solar, ocultando-o durante algum tempo. Dependendo do percurso dos astros e da posição do observador na Terra, os eclipses podem ser parciais ou totais, consoante o Sol é totalmente ou parcialmente coberto pela Lua.

Há, porém, outro fator a ter em conta! Uma vez que a órbita da Lua é elíptica e não circular, há períodos em que este astro se encontra mais próximo da Terra (perigeu) e outros em que se encontra mais afastado (apogeu). Na prática, isto significa que o diâmetro aparente da Lua aumenta e diminui ligeiramente consoante a sua posição orbital. Este fenómeno resulta em dois tipos de eclipses:

  • eclipse total, corresponde à fase de perigeu – os diâmetros aparentes do Sol e da Lua são iguais e o Sol é totalmente coberto pelo disco lunar;
  • eclipse anular, corresponde à fase de apogeu – a Lua tem um diâmetro aparente menor que o do Sol e não consegue cobrir a estrela na totalidade, restando uma espécie de “anel de Sol”.

Foi este último, o caso do eclipse de 3 de Outubro de 2005.

Eclipse anular de outubro de 2005

Soube deste evento alguns meses antes e logo ficou decidido que seria uma oportunidade a não perder! Adquirimos, então, um filtro solar para o nosso pequeno telescópio catadióptrico e comecei a experimentar a configuração a utilizar no dia D.

Guardei um dia de férias para essa ocasião (que calhou a uma segunda-feira) e rumámos a Bragança, a única região do país em que este eclipse não seria meramente parcial e se poderia observar o evento a partir de um ponto central.

Durante o fim de semana percorremos a região em busca do local mais apropriado para montar o equipamento e, no dia 3 de manhã lá estávamos, a ver o nascer do Sol – o eclipse começaria pouco depois. Apesar de termos sido os primeiros a chegar e embora se tratasse de um local bastante isolado, algum tempo depois uma dúzia de astro-curiosos já por ali tinham também abancado. Não foi surpresa pois todos os astrónomos do país rumaram a norte nesse dia.

O único contratempo era o frio que por ali se fazia sentir. Brrrrr! Obviamente, com a chegada da hora H, isso ficou totalmente esquecido.

Eis que, subitamente, às 08h38m, se reconhece a primeira pequena dentada no Sol. O eclipse tinha começado e, com ele, o clique clique das máquinas fotográficas. Os minutos foram passando. Entre as 09h00m e as 09h30m deixou de ser necessário olhar para o Sol para perceber que algo de diferente se passava: a luz começava a esmorecer e as sombras desenhavam estranhas figuras deformadas, uma sensação que se foi tornando mais percetível a cada minuto que passava.

Até que, às 09h52m chega, finalmente, a fase anular. São apenas poucos minutos, até às 09h57m, mas é a fase dos “ahs!” e “ohs”. É o momento por que todos esperavam.

Depois, inexoravelmente, a dança dos astros prosseguiu o seu rumo no sentido inverso e, pouco a pouco, o eclipse vai-se desfazendo. Às 11h19m o Sol voltou a ser um círculo perfeito. Como se nada tivesse acontecido.

Mesmo sem a espetacularidade de um eclipse total, o eclipse anular de 2005 serviu plenamente o seu propósito de experiência astronómica e astrofotográfica. Em 2026 estaremos prontos para receber o único eclipse total visível em Portugal durante todo o século XXI.

Próximos eclipses visíveis a partir de Portugal Continental

  • 3 de Novembro de 2013 – parcial
  • 20 de Março de 2015 – parcial
  • 21 de Agosto de 2017 – parcial
  • 10 de Junho de 2021 – parcial
  • 29 de Março de 2025 – parcial
  • 12 de Agosto de 2026 – total
  • 2 de Agosto de 2027 – parcial
  • 26 de Janeiro de 2028 – anular
  • 1 de Junho de 2030 – parcial
  • 20 de Março de 2034 – parcial
  • 21 de Agosto de 2036 – parcial
  • 16 de Janeiro de 2037 – parcial
  • 5 de Janeiro de 2038 – parcial
  • 2 de Julho de 2038 – parcial
  • 21 de Junho de 2039 – parcial
  • 11 de Junho de 2048 – parcial
  • 31 de Maio de 2049 – parcial
  • 14 de Novembro de 2050 – parcial

Muito importante: para observação direta do Sol é necessário usar óculos de eclipse habitualmente vendidos nas farmácias. As soluções populares (vidros escuros, radiografias, CDs, etc) colocam em risco a sua visão. Na observação solar através de um telescópio ou binóculos é imprescindível a utilização de um filtro solar apropriado. A não utilização deste filtro resultará em cegueira imediata e irreversível.

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